Acerca da criança...

«Obrigamos a criança a transportar o fardo dos seus deveres de homem de amanhã sem lhe conceder os direitos de homem de hoje». Para lá do mais, o que releva da afirmação de Janusz Korczac é a devida consideração da criança na sua condição real de homem. Não de homem em miniatura, esgotado de há muito o conceito do homúnculo, mas de homem em plenitude, pessoa humana no seu todo. Para mim, não unicamente após o nascimento, porém bem antes, à concepção, aqui ganhando, por direito, o estatuto de homem pessoa. Não colhe a asserção estafada de a barriga é minha, enquanto argumento falacioso para o ceifar de vidas com suporte legal. Além de não concebida unilateralmente pela mãe, a criança deverá nascer livre, não escrava, um bem precioso pertença da humanidade, investida do direito à dignidade plena que lhe pertence, não propriedade particular de alguém.  Conhecemos prodígios humanos que estiveram na mira da arma do aborto, felizmente (para eles e para nós) misericordiosas as mães, no melhor sentido, arrancando-os, em momento feliz, às garras de morte injusta e precoce, inocentes, indefesos e ingénuos.
A criança equivale, como toda a pessoa e enquanto tal, a ser em desenvolvimento permanente, por via da educação, que lhe deve oportunizar socialização, instrução e estimulação. Ou seja, deve proporcionar-lhe apre(e)nder valores, atitudes, comportamentos, saberes e conhecimentos, em equilíbrio e harmonia a todos os níveis em que a mesma se processe. Não pode equivaler a criança a mera coisa que diariamente se descarrega às portas de uma qualquer escola, aí armazenada horas após horas, tardiamente resgatada, depois de um ciclo de que participam as aulas e as impropriamente denominadas actividades extracurriculares, se estas não processadas fora das suas portas, de qualquer forma prescritas e impostas por adultos, privando-a de companhia e ambiente em que o nome é a matriz, atirada para ambientes outros onde a matriz é o número. «Mais do que servir os filhos, servem para mantê-los ocupados», e «muitas vezes os pais não têm em conta aquilo que as crianças gostariam mesmo de fazer, limitando-se a impor-lhes actividades», daí que  uma actividade extracurricular possa, «rapidamente, passar de solução a problema». «As crianças de todas as idades precisam de tempo livre. De tempo para brincar, para estar sem fazer nada, para estar simplesmente por casa, com os pais». Para compor o ramalhete, após um dia que saiu pesado e comprido (nem sempre bem cumprido), não raramente mais ocupado do que a jornada de um trabalhador adulto, eis os trabalhos para casa (tpc), que, tão jocosa quão propriamente, já passaram a ganhar a denominação de tortura para crianças, que as mesmas lhes atribuem, de tão fastidiosos ou tediosos, extensos tantas vezes. Pergunto-me se interessam à criança, se à família, se à escola, e se os trabalhos de revisão e consolidação não constituem incumbência desta última e dentro das suas paredes. «O tempo que os alunos passam na escola deveria ser suficiente para a aprendizagem diária», ou seja, «se a escola organizar bem o seu horário, faz menos sentido o trabalho para casa, porque haverá tempo para tudo no espaço escolar». Em boa verdade, não sobram à criança tempos próprios para si e para brincar, ou seja, para fazer aquilo de que mais gosta e de que o respectivo crescimento tem estrita necessidade.