Agir…servir…partilhar…confraternizar!...

Já se tornou muito comum referir que o mundo atual vive, transversalmente, difíceis situações de crise humanitária, a vários níveis, sobretudo ao nível dos valores, sendo o da solidariedade um dos mais significativos e, provavelmente, dos menos compreendidos e sentidos. Há muitas mãos estendidas, muitas pessoas carecidas, muitas situações incompreendidas.
Entre outros contextos, muitas vezes, incompreendidos, estão aqueles que se prendem com a forma como os cidadãos olham para as suas comunidades penitenciárias, ou seja para aqueles que estão detidos, cumprindo, ou não, penas de prisão.
É certo qem sempre existe convergência quando se tratam temas penitenciários, ou quando o assunto são pessoas que estão detidas. Porém, mesmo detidas, não deixam de ser pessoas, que pensam, vivem, existem e coexistem, nos seus espaços intensamente vividos e sentidos, que lhes limitam a locomoção, mas não o pensamento e a imaginação. Espaços, esses, por vezes, tão vazios de sustentados projetos, como de afetos.
Uma sociedade também se avalia pela forma como trata os “seus presos” que, inevitavelmente, dela fazem parte. Importa, por isso, que sejam promovidos processos que contribuam para o sucesso da respectiva reinserção social e de inclusão transversal.
Sem nunca se perder o sentido da justiça e da aplicação das regras institucionais vigentes, com responsabilidade e disponibilidade, para serem assumidas atitudes pessoais de mudança numa perspetiva positiva, aos reclusos deve ser dada a possibilidade de serem olhados como se tivéssemos uma visão optimista, vendo neles, pelo menos numa boa parte, a semente em que o esforço reabilitativo pode florescer e a sua auto-estima crescer.
Trata-se, com efeito, de um desafio que nos deve mobilizar a todos, mesmo tendo em conta as diferenças ideológicas, diferentes formas de pensar e agir, ou mesmo a visão que cada um de nós tem da sua ação individual na vida colectiva.
Foi precisamente neste contexto e conscientes desta responsabilidade social e deste espirito solidário coletivo, valorizando, essencialmente, a imaterialidade relacional de proximidade, que os Confrades da Confraria do Butelo e da Casula levaram a efeito, no passado dia seis, do corrente mês de janeiro, no Estabelecimento Prisional de Bragança, a realização de um jantar, cuja ementa principal foi, obviamente, butelo com casulas.
Com efeito, evidenciando uma generosidade singular, conscientes de que é possível ajudar a melhorar o homem/recluso, em comunhão, cerca de quatro dezenas de confrades marcaram presença em plena zona prisional brigantina, partilhando não só o espaço e a refeição, mas também significativos momentos de afeto, enriquecidos com gestos de altruísmo tão simples como inesquecíveis.
Vivendo-se naquele meio prisional uma convivência fraterna impar, a que não foi alheia, para além dos confrades, a presença de algumas pessoas convidadas, de que se destaca a Secretária de Estado Adjunta e da Justiça, Helena Mesquita Ribeiro, estou em crer que os reclusos se sentiram dignificados na sua grandeza interior, construída em evidentes gestos de amor.
Nesta sociedade em que a indiferença é uma evidência, se omite a atenção pelo “outro”, e o sacrifício, em vez de implicar uma dinâmica de amor, gratuito, alegre e fiel, até pode provocar medo…e receio da partilha, não posso deixar de referir, com redobrado entusiasmo, o sentido ativo e participativo evidenciado neste evento solidário, não tendo dúvidas que permanecerá, indefinidamente, na memória daqueles que neles estiveram envolvidos, ficando demonstrada a grandeza de todos.
Importa, pois, que todos e cada um de nós se empenhe, desinteressadamente, em agir, servir, partilhar e confraternizar, sem desistir de semear e da capacidade de acreditar