AGOSTO NORDESTINO EM CARCAVELOS OUTONAL

São mais de meia centena de histórias, lendas, ditos e relatos curtos que me chegam pela pena talentosa da moncorvense Júlia Guarda Ribeiro que o editor e amigo António Batista Lopes reuniu e editou com a chancela da Âncora Editora num volume sob o título de “Contos no Terreiro ao Luar de Agosto”. Trata-se de uma fabulosa coleção de contos curtos (duas a quatro páginas na sua maiora) ouvidas pela autora nas cálidas noites de Agosto, às velhas que se juntavam no bairro da Corredoura para partilharem memórias, ditos, saberes e experiências. Pequenos e diversos tornam a sua leitura agradável e fácil, numa forma de escrita muito nossa, muito transmontana, muito característica que António Júlio Andrade adjetiva de telúrica e com sabor a terra. Ler Júlia de Barros diarimante tornou-se um hábito que me vai custar perder.
Rogério Rodrigues garante, no prefácio, que Moncorvo é a Macondo de Gabriel Garcia Marques, pela mão e pelo jeito da Júlia Ribeiro. Para mim, a Corredoura é, desde há mais de um mês, o Aleph borgiano por onde espreito a nordestina terra natal, um espaço mágico moncorvense onde, de vez em quando, se abre um pequeno postigo com vista para a minha Vilariça.
A autora faz desfilar no terreiro do mítico bairro da terra do ferro, as mais variadas personagens nas mais diversas situações reais e imaginadas. Histórias reais, histórias inventadas, sonhos e pesadelos, gente boa e gente má, padres e leigos, senhores e criados, servos e patrões, honestos e ladrões, analfabetos e doutores, juízes e polícias, bruxas e feiticeiras, gente simples e letrados, com todo o imaginário popular, toda a sabedoria religiosa e mística, toda a malícia e ingenuidade.
Conheci a Corredoura pela ocasião solene do meu exame da quarta classe (o mesmo que acabou de ser abolido, em Lisboa, no Palácio de S. Bento) e desde então sempre foi um lugar mítico de referência, nas idas à vila, sobretudo nos dias de feira. Hoje tenho-a, diariamente, no sofá da minha sala, em Carcavelos. Revejo gente e histórias velhas e conhecidas mas também episódios e teorias novas. Fiquei a saber porque é que a conhecida incapacidadede S. Pedro de assumir a verdade nos momentos críticos nos privou (logo a nós, durienses) de vinho em dobro mas garantiu que aos figos lampos sucedem, no mesmo ano, os vindimos, assisti ao encontro, antes do tempo, de Campos Monteiro com o seu personagem João Caramês, velei a Laura cujo último sorriso foi para o seu Luis que, com doçura lhe fechava os olhos e venerei um Cristo que em Malhadas, do alto da cruz, descompôs os colegas que o abandonaram sob forte granizada dando mais força e realismo ao epílogo terreno de Cristo: “Pai perdoai-lhes que eles não sabem o que fazem”!