A água sempre com ela

O caminho mais curto rumo à água pura corrente é rápido e espraia-se nas margens do Corredor Verde do rio Fervença. Por aqui as obras de retenção e drenagem começaram, penso eu, nas imediações do Instituto Politécnico de Bragança. No caminho, a água foi sendo armazenada em represas mais ou menos profundas.
Construíram-se várias pontes pedonais em ferro, de modo a que na passagem para a outra margem fosse possível ver a água através de orifícios intencionalmente furados no vão das pontes.
A água corre sempre incolor, apesar de ela* ser mais ou menos suja, com impurezas que a maioria do povo não consegue purificar. Em tempos idos, nela nadavam peixes e aves aquáticas. Agora, vemos o fundo do leito e, com sorte, duas ou três lontras que por certo não deixariam em paz os peixinhos, se os houvesse.
A antiga Central Eléctrica deu lugar ao Centro de Ciência Viva, que já visitei e explorei várias vezes com a minha querida filha. Este empreendimento colocou o rio Fervença no patamar mais elevado da grandiosidade de que agora pode orgulhar-se. Trata-se da estrutura científica, física e lúdica mais visitada em Bragança. Não tanto por brigantinos, mas muito mais por alunos e turistas de Portugal e mesmo da Europa.
Depois, se este calor tórrido for insuficiente para refrescar o corpo, há a possibilidade, um pouco mais distante, de entrar na água do rio Sabor, que corre devagar pela margem direita da estrada a caminho da alagadiça aldeia de Rabal. Nas últimas décadas, quando não havia piscinas nem as praias do Azibo, era ver, por muitos açudes, a juventude e os graúdos à beira de sombras ou brincando no nadar límpido de altas árvores repletas de improvisadas pranchas.
Os rios, secos ou molhados, exibem sempre água, mais ou menos à frente. As nuvens vão dando precioso alimento para colmatar as falhas e borrifar os campos, fazendo circular as gotas de água naquele círculo não vicioso que os agricultores tanto apreciam e conhecem de cor. E o corpo humano feito de água, agradece o maná do céu que ajuda a colmatar muitas enfermidades. Nas nascentes é onde a vida circula das entranhas da terra, dando à luz, através de bolhas puríssimas, a continuação do ciclo imparável.
No caminho, o ser humano começa a fazer das suas e polui o gargalo puro. Os terrenos são adubados, regados de pesticidas, aparece o lodo, as fragas e a água começa a ficar inquinada e depois ficamos doentes porque comemos os produtos com sumo de refrigerantes. E então vemos beleza exterior em prateleiras metálicas, mas nem sonhamos na borra interior que levamos nos sacos feitos da porcaria mais porca. Não pretendo, de forma alguma, abordar o ciclo da água, nem a roda dos alimentos. Antes, induzir os leitores para a comparação/metáfora com os nossos dirigentes, pelo que convido os leitores a digerirem com calma este modesto texto, escrito nas margens do rio Fervença.
A água já corria antes de nós todos e espraiava-se, devido ao açude, no ventre do jardim António José de Almeida, já com juncos, já com plantas aquáticas, já com peixes, já com patos e galinholas.
Estou certo de que o que aqui vos digo pode garantir água, se for espremido.

*crise