Ai Olissipatina, que grande sabatina!

Retomo o tema da Grécia. Muito já se escreveu sobre ele mas muito faltará escrever. Vou juntá-lo com Portugal na palavra Olissipatina (Lisboa+Atenas, em Grego).
Dois temas têm dominado a agenda sobre a Grécia: as causas da crise e a forma da resolução (apenas adiamento? segundo António Vitorino) da crise.
Quanto às causas da crise, tudo se resumirá, no domínio greco-europeu, ao ditado popular de «quem não quer ser lobo, não lhe veste a pele». Mas, e se o enxerto grego na Europa e a resolução da crise tiverem sido uma imposição externa, de carácter geoestratégico, pelos EUA, para não desestabilizar ainda mais o Médio Oriente e não atirar a Grécia para os braços de Putin?
Se for esta última situação o caso da Grécia, perdoamos à Alemanha? Que faríamos os portugueses ou os gregos no lugar da Alemanha? Seríamos mais altruístas? E a Alemanha, estará a ser gananciosa ou apenas a impor a sua agenda relativamente à moeda única? E esta, não era sobejamente conhecida, há 20 anos?
Os portugueses e os gregos discutiram profundamente a adesão à moeda única? Não houve muitas vozes que disseram que iríamos colher benefícios mas que, no fundo, iríamos ficar numa luta entre cordeiros (os portugueses, os gregos e um pouco os espanhóis e os italianos) e os lobos, verdadeiramente só a Alemanha, a Holanda e a Dinamarca?
Não era consabido que o endividamento bancário para empréstimos baratos, ao longo de quinze anos, era incentivado por aqueles países para virem a cobrar em dobro ou em triplo? Então, por que é os portugueses e os gregos não pensaram melhor antes de toda a sua devassa?
Com estes 86 mil milhões de euros, a Grécia fica a dever 400 mil milhões. A economia grega só gera 190 mil milhões por ano e as finanças públicas não conseguirão economizar mais que seis mil milhões por ano, mesmo que não façam investimentos. Mesmo só a 3%, a dívida custa em juros 12 mil milhões por ano. Ou seja, a Grécia terá de continuar a endividar-se, só para pagar juros.
E Portugal? Não está muito melhor. Ricardo Cabral chamava a atenção para a verdadeira dimensão da dívida portuguesa: 300 mil milhões, resultantes dos 229 mil milhões oficiais e dos 71 mil milhões artificialmente escondidos. Se assim for, a dívida real constituirá 161,2% do PIB (186 mil milhões). Em juros anuais, pesará, a 3% ao ano, 9 mil milhões de euros, ou seja, 5% do PIB. Mas a economia portuguesa também não tem capacidade para gerar um superavit superior a seis mil milhões, ao ano, mesmo sem investimentos públicos. Isto significa que ainda estamos em grande risco financeiro e o FMI veio alertar, novamente, para isso, na semana passada.
Neste momento, e nos próximos 20 anos, o discurso político terá de ser de contenção, de equidade, de apelo à consciencialização das dificuldades e de promoção de diálogo para encontrar boas soluções sociais.