Alicerces de futuro parte II

 
Indo da tradição à novidade, cumpre saudar como se veicula a expressão da liberdade, seja na Imprensa escrita, na precária televisão, nas rádios – e salientem-se as privadas.
É, igualmente, da ordem da mediação o apoio oficial, autárquico ou outro, à administração da cultura. No que se refere a equipamentos sobre o Rio Fervença, vão longe as queixas de quando, ardido o Cine-Camões, Bragança não dispunha de uma sala de cinema. Hoje, do Arquivo Distrital e Fundação ‘Os Nossos Livros’ às Bibliotecas Municipal e de Adriano Moreira no Centro Cultural com o nome deste, dos tão concorridos Museu do Abade de Baçal, Museu Militar e Museu Ibérico da Máscara e do Traje às mostras regulares no Centro de Arte Contemporânea Graça Morais, do Conservatório de Música a salas de cinema e do polivalente Teatro Municipal ao Centro Ciência Viva, a cidade tudo concentra, na atmosfera alcatifada ou ao ar livre, segundo padrões avançados, mesmo se não deviam fenecer espaços históricos, como o Clube de Bragança. Retocada a cidade patrimonial, seguida de levantamentos arqueológicos, e com o acrescento de uma Academia de Letras de Trás-os-Montes, de um Centro de Estudos Sefarditas, do recentíssimo Centro de Fotografia Georges Dussaud, de pós-graduações em Direito, que outra perspectiva se antolha mais acolhedora? Há propósitos de harmonia, mais flagrante em vista aérea, no meio de algum desacerto urbanístico.
 
                    Sugestões
 
Tantas ofertas e possibilidades deveriam resultar em expressão, em formas de criatividade artística ou empresarial que, bebendo no húmus do localismo sem fronteiras, dignificasse este chão. Vêm de fora os recolectores da tradição oral em que o distrito semelha um rico que se desconhece, e que tantos convocou, de José Leite de Vasconcelos a Michel Giacometti, de Manoel de Oliveira a Joseph Piel e Lindley Cintra, de Manuel da Costa Fontes a Alexandre Parafita. O traço oral e tradicionalizante da cultura bragançana aproxima-se, inesperadamente, do processo em rede, virtual, pelo jogo infinito das variantes que os textos favorecem; em não raras preocupações ou festividades, relaciona-se com Espanha e deve saltar os Pirenéus. Conhecido o «meio interior», ou tradições «mentais» de uma comunidade, decorrem algumas sugestões.  Assim, a gestão e animação socioculturais abrem inúmeras hipóteses de trabalho.
O marketing da História local, da geografia, da ecologia e da gastronomia concorre para um turismo sadio, rural, também sob forma de campismo, de passeio ou caminhada, de burro, e desportivo (de BTT), enquadrado por museus rurais, associações de amigos dos castelos, de caça e pesca, de confrarias gastronómicas…
A origem dos produtos é um bem inestimável e, daí, o êxito de certas feiras (do Fumeiro, Expo Trás-os-Montes, etc.) e o interesse crescente pelo artesanato, em suas relações já transfronteiriças. Vinho, azeite, castanha, amêndoa, mel, eis outras promessas de futuro. Importa produzir melhor e, sob forma cooperativa ou outra, distribuir convenientemente. Pensar uma indústria rural é decisivo. O segmento religioso está por explorar, desde ex-votos a ermidas e santuários, de arte sacra à arquitectura e à lenda. Estudar, por exemplo, a fortuna do mosteiro de Castro de Avelãs enquanto marco no caminho de Santiago.
(continua na próxima edição)