Amadeu

Não fomos íntimos. Nos encontros repartíamos joviais efusões tendo sempre como pano de fundo as nossas terras, as nossas gentes. Na última vez retirou da cabeça a titular boina, vislumbrei pequena incisão, os olhos disseram tudo, o sorriso desmaiado revelou conformismo. Há um mês o escritor Ernesto Rodrigues seu íntimo amigo disse-me do agravamento da maleita, via Internet chegou-me a notícia da morte do indómito Mirandês, o qual personificava o dito pessoano sobre a Pátria ser no caso dele a língua mirandesa. Dizer o quê? Está tudo dito, acrescento o óbvio: Amadeu foi o homem que em menos tempo, mais contribuiu para mudar a nossa opinião sobre a ancestral fala dos mirandeses. Dilatando a fronteira da sua implantação, granjeando-lhe respeito quando antes só os especialistas lho concediam, traduzindo para a sua lhéngua Os Lusíadas entre outras obras de vários matizes e géneros. Há largo tempo durante um jantar cujo anfitrião foi António Jorge Nunes trocámos dilatas impressões acerca das singularidades civilizacionais existentes na Província, sobre alfarrabistas e editores, dicionaristas e suas manias, adicionando a influência dos seus informantes exemplificando com Trindade Coelho relativamente ao estimável e imprescindível Cândido, dicionário que muito frequento criando ciúmes a Roquette, a Bívar e ao velho Morais. Muito aprendi durante tão memorável festim, até soube quanto custaria o tesouro de Dom Bluteau, no referente ao universo do dinheiro não se alongou em comentários, retive a ideia de todo o cuidado é pouco no lidar com o vil metal. Não me atrevo a descrever as suas riscantes qualidades e vincados méritos, outros o farão de forma mais sabedora e desenvolvida. Tenho provas da sua generosidade e apego a fazer bem sem ver a quem, lastimo o facto de não ter beneficiado mais vezes do seu convívio, não esquecerei aquela face serena com a alma nela estampada. E a memória? Não tenhamos ilusões; daqui a seis dias apenas a família e os amigos recordarão Amadeu Ferreira, estudiosos de línguas minoritárias, acrescidos dos obrigados a estudar os seus escritos para fins de utilidade, os bibliotecários criaram a classe dos utilizadores. Compete aos amantes da cultura lembrá-lo a todo o tempo, para lá das burocracias oficiais que julgam saldar a dívida instituindo um prémio e/ou pespegando o seu nome na esquina da viela menos concorrida. Será que nas Bibliotecas do Nordeste os seus livros foram colocados em lugar de destaque? Ao menos isso!