Amadeu Ferreira: valores que não morrem

Amadeu Ferreira faleceu, aos 62 anos, no dia 28 de Fevereiro,vítima de um cancro no cérebro que o fez sofrer imenso durante mais de um ano. Mas Amadeu só morreu fisicamente. Foi um exemplo para o país e para a sua região e terra natais. Obrigado, Amadeu. Tu ficarás para sempre, não apenas junto dos teus mas também daqueles para quem foste um exemplo de amor à terra, de persistência em preservar-lhe a cultura e de mostrar que, afinal, Portugal é ainda maior do que Fernando Pessoa o imaginou na pátria das línguas e do que Natália Correia o descreveu na mátria da construção dos imaginários.
A singularidade que conheci em Amadeu foi o seu respeito pelo Homem e pela Humanidade, acima de qualquer diferença. Foi das poucas pessoas que nunca me perguntaram pela minha ideologia política, pelo meu partido, perguntando-me, antes, qual era o autor que eu mais admirava.
O percurso de Amadeu terá resultado de uma iluminação. Cito Joana Beleza http://expresso.sapo.pt/amadeu-que-aprendeu-o-mundo-no-campo-e-tinha-o-c...): «numa “longa noite (…), Amadeu Ferreira sentou-se à secretária e, num rasgo de insónia e de inquietação, escreveu um manifesto pela língua mirandesa. Da ponta dos dedos saíram-lhe oito páginas que eram ao mesmo tempo um resumo de história, um pedido de socorro e uma carta de amor». E cita Amadeu (art. cit.): “Que destino queremos para o mirandês? É muito difícil responder: a língua está tão doente que ainda não descobriu remédio que a salve. Primeiro, fez uma fronteira com o português e manteve-se apenas numa parte da Terra de Miranda; depois, tornou-se amiga do português e foi-lhe pedindo palavras emprestadas como se fossem suas. Quando, entretanto, a expulsaram da Igreja, foi como receber uma facada que nunca deixou de sangrar e, com o tempo, evoluiu para cancro. Quem conhece a cura para o cancro? Apesar disso, não há que desistir nunca ou dar-se por vencido. O pior é que os mirandeses nem se aperceberam. Está doente, velha e cansada, com poucas forças para resistir. E apenas existe uma maneira de os velhos viverem: através dos filhos. O mirandês deve deixar filhos que tenham orgulho na sua língua e não reneguem os pais.” (Amadeu Ferreira, citado por Joana Beleza, artigo referido).
E, prosseguindo: “No passado, há muitos anos, obrigaram-nos a falar português. Disseram-nos que o mirandês não era uma língua de gente ou, então, era uma língua de gente estúpida, atrasada. (...) Envergonhada, foi-se escondendo de quem vinha de fora, foi encolhendo até ficar presa numa pontinha de Portugal. (...) Em cada aldeia, a língua cresceu com as suas diferenças, a sua maneira de ser, embora sem deixar de ser quem era. Apagar essas diferenças ou fazer de conta que não existem seria ficar mais pobre e, quem sabe, morrer de vez. Pertencer ao mirandês, como uma língua única, é algo de que nos devemos orgulhar.”
Mas é o autor que eu mais admiro que permite, em primeira mão, explicar a grandeza do Mirandês ou do Barranquenho ou do Rio d`Honorense ou ainda do Guadramilês. Kant explicou, em primeira mão, que é cada pessoa que organiza o seu mundo, indutivamente do local para o global, dedutivamente do global para o local. A dignidade do mirandês é a mesma do Lisboeta.
O esforço de Amadeu foi compensado simbolicamente em vida pelo nascimento da neta, filha do filho linguista mirandês de profissão, com nome em homenagem ao Mirandês: Lhuzie. Por isso, a alegria de Amadeu na conversa com Joana Beleza (art. Cit.): “O nome da minha neta é um manifesto pelo mirandês e o reconhecimento de uma vida, de um esforço, de um ideal que foi o meu. Se ela viver muitos anos, como eu espero que viva, e se os pais falarem com ela em mirandês, como eu espero que falem, então ainda se falará mirandês daqui a muito tempo.”
Obrigado, Amadeu. Tenho a certeza. Descansa em paz.