Apanhadores de canas...

Somos capazes, nós os humanos, de recuar nos tempos, esgravatar nas memórias, redescobrir as nossas fontes de felicidade, as amarguras corrosivas, os acontecimentos que a História registará.
Assisti, felicidade minha, ao eclodir da liberdade. Constatei, ao longo destes quarenta longos anos, ao despudorado caminhar nas estradas democráticas que Abril abriu.
Nas já idas tertúlias estudantis, nos becos que nos acolhiam, nas garagens conspiradoras, trocávamos opiniões diferentes, novas formas de ver o mundo, aspiravamos a novos rumos para Portugal. Agora, no virar da página, no confronto dos quarenta anos, da ditadura e da democracia, ressalta a vergonhosa troca, de uns por outros, dos fascistas reaccionários por democratas engravatados, traidores de um povo que regozijou na alvorada daquela noite do sonho, daquela bendita madrugada.
Como foram capazes de, olhando o passado, agigantar o fosso que separa os de cima dos de baixo? Como foi possível criar um novo e sofisticado modelo de ensino capaz de colocar nos cursos de elite apenas os endinheirados, os gravitados aos centros do poder? Como acreditar nos vergonhosos ordenados oferecidos aos nossos jovens licenciados quando, ao mesmo tempo, enchemos os bolsos dos que, desde Abril, se sentaram nos assentos doirados da gestão de topo, os mesmos que renegam um aumento de cinquenta euros no ordenado mínimo.
Temos um ex-Primeiro-ministro preso porque sobre ele recai o pressuposto de ter desviado treze milhões de euros. Se condenado terá, como evidente, de pagar por isso. No entanto assisto, atónito, ao comportamento dos mesmos que o detestam, suportam o inarrável assalto ao BPN, covil de uma alcateia de polidas personagens, oriundas de uma facção politica conhecida e que, de uma penada, desviaram 4,5 mil milhões de euros. E agora, agora mesmo, nos momentos da actual governação de um Senhor dos Passos, nas barbas de um Presidente e de um Governador do Banco Central que juraram a solidez de uma Instituição Financeira levando centenas de Famílias á ruína e apontaram um tremendo destino a todos nós: pagar talvez para lá de três mil milhões de euros pela errada solução do caso BES.
Observo no círculo de amigos e nas conversas de café uma ira eriçada e furibunda contra Sócrates e não sinto qualquer encrespar revoltoso e gritante para com os casos BPN e GES/BES. Nenhum é desculpável mas falamos de 13 milhões contra oito mil milhões.
Uma nova Constituinte espreita. O árbitro apitou e os concorrentes lançaram-se à estrada. Para informar os votantes os cartazes inundaram locais estratégicos e, na pressa, sem desculpas, o PS parece dar o flanco á coligação dando azo a hilariantes situações provocadas pelos que gostam de brincar em vez de informar.
Os foguetes estão no ar, o futuro de Portugal nunca poderá estar nas mãos de brincalhões, de adultos-criança, dos Apanhadores de canas…