Apanhar a Toalha do Chão

       Ao entrar na minha rua, após ausência de cerca de oito horas, senti-me fora dos tempos, duvidoso se na posse do pouco juízo que me resta. Os postes de iluminação estavam engalanados em alternância, tal como nas festividades religiosas, lembrando a Páscoa, talvez o Senhor dos Passos.
Dava para não acreditar que, do nada, como por milagre, sem barulhos e azáfama, tudo pronto, nos trinques. Um partido político, transfigurado, travestido, nos antípodas de sua cor natural, vestiu aquela zona dum roxo azulado, entre os pintares do CDS e dos Monárquicos. Partindo dos críticos, dos que relembram á exaustão o socialismo na gaveta, salta á vista a vergonha do timbre original, o vermelho gritante que bem coloria a foice e o martelo. O marketing, o apelo ditou bem alto a viragem, diluem-se as ferramentas operárias no apelativo azul celestial.
Este azedume crescente que me invade, que me corrói por dentro, inundou-me as entranhas na escuta atenta á informal e sonolenta conversa entre os actuais representantes das mais votadas forças à esquerda do PS, as que se consideram as únicas defensoras dos valores da justiça social. Ouvi-los, enterrados nas calmas que não enganam, nas falas estudadas, nos apelos aos que ainda não deram para o peditório, salta à vista o engodo, o falso isco: sosseguem, nosso alvo não é a coligação muito menos a direita, trata-se do PS, esse sim, ele é o lobo mau e nós a avozinha e o capuchinho vermelho.
Desde Abril que assistimos, à esquerda, ao aparecimento de iluminados, nascidos do chão, aos que acordaram tocados por obscura divindade, aos que transformaram um sonho numa indestrutível realidade, aos que se julgam timoneiros detentores de uma nova mensagem. Este esbanjamento dos votos de esquerda trouxe-nos até aqui: uma certa esquerda que se recusa, e sempre recusou, participar numa plataforma de governação e tem, como objectivo único, a destruição do PS, apanhando dos cacos os apetecidos votos da ilusão, votos que saltam apenas duma esquerda para outra esquerda.
Pasmo no inimaginável, no inacreditável, no ajoelhar das vítimas defronte do carrasco. Os jornais, a rua, a feira, os jardins, os lares de terceira idade, o esvaziamento das creches, o abarrotar dos Centros de Saúde e Hospitais, as intermináveis filas nos Centros de Emprego, a sopa dos pobres, a perca da habitação, o mirrar das reformas e ajudas sociais, as misérias, a irrespirável atmosfera, enfim, pensava eu que a revolta andava no ar.
Triste esquerda, triste Abril, triste Fado. Em vez da união assisto ao estilhaçar da esperança, da defesa de Abril, do abandono do povo. Os umbigos chocam-se acima da altivez, uma dezena de partidos ditos de esquerda guerreiam-se achando-se, cada um na sua pequenez, os detentores da Boa Nova.
Do outro lado, apenas dois partidos da direita, colhendo dos inchados umbigos da esquerda, vão-se governando, governando.
Portugal está atento, nada está perdido porque, de muitos, outros não vão Apanhar a Toalha do Chão…