Até breve, meu Amigo!...

A sua vida não comportava segredos, ou os segredos não participavam da sua vida, porque sempre fez cristalino o seu passar dos tempos. Com a naturalidade e a pureza, a ingenuidade e a inocência de qualquer criança, verdade sem imaginação, traduzia para todos o seu dia a dia. Sem discriminações, livro aberto que todos liam, sala ampla de porta a franquear a entrada a qualquer um. E, virtude a relevar, jamais seriam falhas de atitudes ou comportamentos adequados, de saber estar e saber ser que ele poderia comunicar, simplesmente porque disso não existia na vida do meu vizinho Felisberto. Vizinho exemplar, e Amigo, sobretudo. Exemplo de bondade, humildade e simplicidade, um homem possuidor de uma alma enorme e poderosa. Vida farta a dele, no sentido de uma vida plena e rica, não de uma rica vida, que não conheceu. Homem de trabalho, do seu suor brotava o sustento de uma casa cheia, labuta diária no amanho da terra, que desbravava ou acariciava no cumprimento do ciclo produtivo e reprodutivo. Vida rica também pelos filhos concebidos e criados, sem saberes e conhecimentos de ciência, porém na abundância de ternura e afectos, serenidade e amor. Passo a passo, transmitiu-lhes virtudes que lhes permitiram singrar na vida, em busca de tempos e lugares de felicidade. Uma boa ninhada de filhos, no melhor sentido da proposição, quando as crianças ainda eram bem-vindas, bênçãos de Deus, não pedras ou estorvos nos caminhos das vidas das mães, preenchidas de futilidades. Tempos em que, pequenas as casas, parcos os proventos e enormes os sacrifícios, ainda assim havia sempre lugar para mais um, carinho garantido para todos, porque muito dele havia.
Intentando alindar a propriedade onde ergui a minha casa, circundei-a de pinheiros que, pelas graças do tempo, se foram desenvolvendo, ano após ano. Já crescidos, pediu-me um dia o meu vizinho Felisberto que abatesse alguns, por lhe ensombrarem a horta onde se entretinha a produzir espécies variadas de vegetais. Mas fê-lo com tamanha delicadeza, que mais parecia estar-me a pedir desculpa pelo “atrevimento”. Acedi ao seu pedido, de imediato, sem buscar, sequer, confirmação para o fundamento do mesmo. Porque o meu vizinho Felisberto não mentia. Haveria de me dizer que não se impunha a necessidade de abater tantos. Mandam os meus princípios, porém, que, nestes casos, antes dois a mais que um a menos.
Gozando ainda de saúde ou já confinado a casa pela doença, tinha sempre um palavra amiga para quem o saudava ou para quem ele saudava. Na circunstância segunda, entristecia-o o isolamento, e constituíam-lhe alegria enorme aqueles dias em que mais visitas recebia, dias a que, candidamente, chamava “lindos”. Sofria com o isolamento, estou certo de que bem mais com a dor de não poder tratar das terras do que com as maleitas teimosas do corpo.
A seu lado caminhou a esposa, dedicada, simples, bondosa e humilde como ele. A esposa que ele tanto gostava de ter junto de si, mormente nos últimos tempos de vida. Ficava inquieto quando ela, fugidiamente, havia que tratar de alguma tarefa fora do lar, por tempo que mais se lhe parecia com eternidade dolorosa. Perdeu a senhora Maria o companheiro de todos os dias; ganhou Deus uma companhia. Até breve, senhor Felisberto, se eu merecer ir ter consigo.
Escrevo segundo a antiga ortografia.