Barros Queirós: a Personificação da Moral Republicana

A abstenção de 43,1% nas eleições legislativas do pretérito dia 4 de Outubro vieram confirmar, sem qualquer espanto, o desprezo que os portugueses nutrem pela classe política. Um divórcio ao qual não é alheia a ideia (ficcionada ou não) de que a política é não a nobre arte de servir o povo, mas um lugar apetitoso onde se buscam tachos, satisfazem egos, ambições pessoais e clientelas.
Não sei se por mera coincidência, um dia a seguir ao acto eleitoral, o canal 2 da RTP exibiu um interessante documentário sobre a vida e obra de uma das personagens mais influentes da Primeira República, Tomé José de Barros Queirós. Uma peça imperdível, numa sociedade cada vez mais deficitária de bons exemplos e desprovida de valores.
Torna-se, por isso, imperioso, e até pedagógico, exaltar aqui este fascinante ser humano, como fonte de inspiração para os novos aspirantes à defesa da causa pública.
Nascido em Quintães, uma recôndita aldeia do concelho de Ílhavo, oriundo de uma família nobre que entrou em declínio financeiro, com a tenra idade de 8 anos, Barros Queirós rumou à capital com a legítima ambição de ali procurar uma vida melhor. Todo o seu percurso de vida foi feito pelas escadas, rejeitando a ascensão social pelo elevador. Degrau em degrau, mal acabado de chegar a Lisboa, iniciou-se na actividade laboral como caixeiro numa das mais emblemáticas e importantes casas comerciais da cidade, Casa José de Oliveira, da qual se tornou sócio com apenas 20 anos de idade, vindo a adquiri-la alguns anos mais tarde.
Autodidacta, Barros Queirós tinha (apenas) como grau académico o curso da Escola Elementar de Comércio de Lisboa. Comerciante bem sucedido, inteligente, respeitado, cedo começou a fazer parte da nata financeira lisboeta.
Em 1888 aderiu ao Partido Republicado, numa militância que o levou - depois de ter sido presidente da junta de freguesia de Santa Justa (Lisboa), vereador e deputado à Assembleia da República - a ocupar os mais altos lugares da administração pública: vice – presidente e presidente do Parlamento, presidente do Conselho Disciplinar do Ministério das Finanças, presidente do conselho de administração dos Caminhos -  de -  Ferro, presidente da Comissão de Reforma Aduaneira e Serviços Fiscais, Secretário – Geral e Director – Geral da Fazenda Pública -  numa pasta em que foi o principal obreiro da reforma tributária de 1911 - ,  Ministro das Finanças e Primeiro – ministro.
Diz-se nesse documentário que o contemporâneo e amigo de Afonso Costa e Manuel de Arriaga nunca aceitou ser remunerado pelos muitos cargos públicos que desempenhara. Quando obrigado (por lei) a aceitar, distribuía essas verbas pelos funcionários da Assembleia da República. Não tinha motorista. De casa para o trabalho e do trabalho para casa, independentemente da natureza do cargo que ocupava, deslocava-se de eléctrico, pagando do seu bolso o custo das viagens.
Barros Queirós foi um homem com um elevado sentido de Estado. Um sentido cívico regido pela “ética burguesa do trabalho, da lealdade, do mérito, da recompensa, da disciplina e rigor das contas”. Desapegado ao poder e à materialidade, era de uma probidade e lisura intocáveis, altruísta, discreto, aquele para quem a “Moral e a Ética Republicana” não eram conceitos vazias, mas valores permanentemente cultivados.
Não tenho dúvidas que hoje os barros queirós na nossa política (não que não existam, mas porque, acredito, não se revelam), além de desejável, tornariam mais participativos os actos eleitorais. Um cenário utópico, improvável, tendo em conta as dinâmicas das máquinas partidárias.