Bispo em tempos de crise

Há homens que deixaram uma marca indelével na história da nossa diocese. D. Abílio Augusto Vaz das Neves é, seguramente, um desses. Foi escolhido para bispo de Bragança uns meses antes de se iniciar a Segunda Guerra Mundial, a 8 de Dezembro de 1938 e tomou posse a 28 de Março de 1939. No passado sábado, cumpriram-se 35 anos sobre a sua morte. Em tempos conturbados e numa diocese com parcos recursos, conseguiu deixar uma obra notável. Concluiu o edifício onde funciona o seminário, edificou o Colégio de S. João de Brito em Bragança, o Colégio de Mogadouro e o Patronato, para acolher rapazes órfãos e carenciados.
Para além da obra edificada, fundou uma congregação religiosa feminina, as Servas Franciscanas, e esteve na génese da instalação de uma comunidade de vida contemplativa no Carmelo de Moncorvo. Criou o jornal diocesano, “Mensageiro de Bragança”. Reorganizou a catequese, que era, à época, considerada modelar no panorama nacional. Deu um grande impulso aos movimentos laicais, sobretudo a Acção Católica. Investiu na formação dos futuros padres, reformando o seminário diocesano. Promoveu o último Sínodo diocesano, em 1945, na comemoração dos quatrocentos anos da criação da Diocese de Miranda e aprovou as últimas Constituições do Bispado, em 1945.
Apesar de todo esse dinamismo e vitalidade, há cinquenta anos, D. Abílio terá sido o primeiro bispo a resignar antes de atingir os setenta e cinco anos. A idade proposta pelo Decreto “Christus Dominus” (nº21) e que só viria a ser concretizada pelo Motu Proprio “Ecclesiae Sanctae” publicado por Paulo VI, a 6 de Agosto de 1966, mais de um ano após a resignação de D. Abílio. Até então os bispos não eram obrigados a pedir a resignação e a maioria permanecia à frente da diocese até à morte. Justificou o seu pedido por não se sentir com forças para implementar a reforma conciliar. Uma decisão que surpreendeu os seus colaboradores mais próximos. O Pe. Marcos, ecónomo diocesano, terá sucumbido a um ataque cardíaco fulminante, ao saber da notícia.
Há quem defenda que o poder político se terá movimentado para forçar D. Abílio a abdicar. Henrique Ferreira escreveu recentemente, neste jornal, que o bispo “foi vítima da sua solidariedade para com o Bispo do Porto, D. António Ferreira Gomes, expulso do país, entre 1959 e 1969, pelo Regime Político de Salazar. Na sua passagem por Bragança, foi acolhido no Paço Episcopal. Como castigo, Salazar retirou os apoios à construção da Catedral (um projeto desse tempo), sob pressão dos líderes locais, e acabou por influenciar a substituição do Bispo por D. Manuel de Jesus Pereira (1965-1979)”.
O cónego Abílio Miguel, sobrinho de D. Abílio, garantiu-me que não terá sido essa a razão. Até porque o tio mantinha as melhores relações com o Estado Novo. De facto ele estava quase cego e muito debilitado fisicamente. De tal forma, que já nem se sentiu com forças para ir à Segunda Sessão do Concílio. A História se encarregará de esclarecer a questão… Um facto indesmentível é que não conseguiu concluir um dos muitos projetos em que se empenhou: dotar a diocese de uma catedral condigna. Uma aspiração adiada desde 1770, quando foi escolhida provisoriamente a Igreja dos Jesuítas para catedral, que só viria a concretizar-se em 2001, graças à tenacidade e determinação de D. António Rafael.
Um dos segredos do sucesso de D. Abílio, em tempos de crise, era saber colocar a pessoa certa no lugar certo. E, apesar de a diocese ter um clero numeroso, quando não tinha essa pessoa, ia-a buscar fora. Como foi o caso do Cónego Formigão, sacerdote do Patriarcado de Lisboa, que veio para Bragança com a missão de refundar o Seminário e que foi o primeiro diretor do Mensageiro de Bragança. Tendo também ajudado o bispo na criação do Patronato e da congregação religiosa.
Por tudo isto, D. Abílio é hoje uma personalidade inspiradora para os momentos difíceis que atravessamos, ainda que aquém dos vividos durante a Segunda Guerra Mundial.