A bondosa Senhora e o 25 de Abril

A bondosa Senhora é grande amiga de Ernesto Rodrigues, especialista de vários graus, latitudes e longitudes literárias, professor universitário, transmontano nascido numa terra onde uma outra Senhora chama há séculos. Nunca recebeu resposta do homem objecto da sua paixão. Será?
Há umas semanas fui ouvir Ernesto Rodrigues explicar as virtudes e embirrações da Senhora bondosa e das restantes figuras do romance, disse o escritor aflorando um sorriso debaixo do bigode. No entanto, à medida da exaustoração das personagens como peças de um jogo de xadrez complexo no raciocínio (assim devem ser os jogos no tabuleiro de quadrados normalmente pintados a preto e branco) abriu-se o bolso da memória e saltaram um nome e duas datas.
O nome correspondia ao filósofo Norberto Bobbio, as datas 25 de Abril de 1974, 2002, Abril, Budapeste. Aquelas referências em tropel levavam as palavras do escritor serem penetrantes, aguçadas ao modo dos aguilhões enterrados em varas destinadas a os lavradores espicaçarem as vacas e os bois nos tempos de antigamente. A bondosa Senhora também era do tempo dos carros puxados por gado vacum nas aldeias do tal reino maravilhoso de inspiração torguiana. Fiquei a julgar.
No reino do julgar logo a menção ao celebrado Séneca provocou-me pensamentos relativos à senectude, as palavras vindas da boca do narrador acentuaram o transporte a Bobbio, talvez a despropósito, ao seu Dicionário Político, aos esclarecimentos provindos da sua lavoura reflexiva (de lavrador da terra à espera de cultura, de culturas) relativamente à esquerda e à direita. Porque teria sido?
O descasque das personagens prosseguiu, o Professor Ernesto qual consumado cirurgião esventrou minuciosamente cada uma das ditas figuras, revi a princesa do Anão de Lagerkvist, o desempenho dos estiletes naquela sofisticada corte italiana; o estertor salazarista a rebentar nas mãos de clerc indeciso, irresoluto. Não percebeu a diferença entre a farda castanha de imitação nazi e os uniformes camuflados em cujos bolsos se misturavam balas, granadas e rações de combate.
E, aconteceu o dia D, caucionador dos três dês, democracia, descolonização, de desenvolvimento. O D dramático dos retornados veio a seguir, a bondade deu a mão desejo de sobrevivência despedindo o desânimo embora ainda persistam aqui e além feridas a purgarem.
Os nomes vindos da Mitologia enunciados pelo autor atiraram-me para a Grécia de Ícaro onde os refugiados sem asas esperam a entrada no falso paraíso, apesar de tudo infinitamente melhor de onde viviam.
Pensei a pedra preciosa Ágata como personificação das mulheres frágeis e poderosas simultaneamente, julgo ter ilusionado Filomeno em Filodemo amigo do Demo, surgiram os quadros pavorosos do realismo socialista vistos, observados, perscrutados num museu situado na encosta de Buda, da graciosa e limpa Budapeste.
Para Buda fui de eléctrico, à vinda preferir fazer a pé o percurso até Peste, olhando demoradamente o Danúbio tantas vezes de águas ensanguentadas. Ao longo de séculos, nas margens e nas águas desse rio matou-se muito. Muito!
Por cá recuperámos a possibilidade de dizer, de escrever enfiando cravos nos canos das espingardas. Eis da diferença, eia a razão de escrever: 25 de Abril, sempre. Sempre!
Agradeço a Ernesto Rodrigues o operativo texto de apresentação a originar a leitura do romance, esta emaranhada crónica.