Bragança, a Capital do Nada

 
Não obstante o investimento que ao longo dos últimos quinze/vinte anos foi feito, a nível de infra-estruturas e de acessibilidades, para tornar Bragança mais bonita e atractiva, aquilo que salta à vista de todos é que esta interessante e acolhedora cidade tem vindo a perder importância política e económica não só em relação à sua congénere vila-realense, com quem, aparentemente, sempre rivalizou, mas a Mirandela.
Como bragançano, sempre defendi que para se fazer desta cidade um lugar atractivo, em todos os aspectos, tanto para os seus naturais, como para quem a visita e nela pretende fixar-se, não é preciso copiar a supérflua modernidade das grandes cidades. Pensar o contrário, desvalorizando a invejável qualidade de vida e o conforto que ela nos proporciona e oferece, no fundo, os grandes factores de diferenciação, é negar a sua singularidade.
Quanto às razões que têm levado a que Bragança seja, neste momento, uma cidade não muito diferente, em termos apelativos, de qualquer outra vila do distrito, elas estão devidamente assinaladas:
Para além da ausência de políticas de investimento, capazes de fixar pessoas - ainda hoje me custa a aceitar o porquê de Bragança não ter sido contemplada com a Escola Superior de Hotelaria, entregue, diz-se, de mão beijada, aos mirandelenses -, foi a discriminação negativa na distribuição das verbas vindas da União Europeia, ao longo das últimas três décadas. Destinados à coesão social e territorial do país, a aplicação desses dinheiros, ao contrário do propósito, contribuiu para acentuar ainda maias as desigualdades entre o interior e o litoral., porque o imenso bolo nunca foi irmãmente repartido, de acordo com as necessidades de cada região, mas obedecendo a critérios lobistas.
Foi o “ímpeto reformista” dos últimos governos, que levou à desactivação e encerramento de muitos serviços públicos – cujo pontapé de saída foi dado, qual sinal, com o fecho da linha do comboio entre Bragança e Mirandela, no longínquo ano de 1992.
Têm sido os eleitos desta terra que, eternamente dentro da máquina do poder, mais preocupados com as suas carreiras políticas do que com o bem – estar dos seus concidadãos, depois de se lhes confiar o voto, fazem tanto por Bragança e pelo distrito como, por exemplo, os seus homólogos pertencentes ao círculo eleitoral de Faro.
Tem sido a inércia das ditas forças - vivas cá do sítio (um perfeito oximoro), dos empresários locais e o conformismo da iluminada gente provida de “massa crítica”, obviamente, com responsabilidades distintas.
Não seria tentado a escrever sobre o tema, se não tivesse tido conhecimento deste singular e, diria mesmo, hilariante facto que, bairrismos à parte, constitui uma penosa humilhação mesmo para quem tem pela sua terra uma relação menos doentia.
 No final do mês de Fevereiro, chegou às salas de cinema de todo o país “As 50 Sombras de Grey”, porventura, o filme mais mediático e sensacionalista dos últimos anos.
O caricato da situação é que algumas dezenas de bragançanos foram obrigados a deslocar-se a Mirandela para ver a dita película, porque na capital de distrito, onde pagam o imposto municipal sobre imóveis (IMI), o imposto único de circulação (IUC), o imposto sobre Mais – Valias, a taxa de saneamento e outros que tais, pasme-se, não existe uma sala de cinema para aceder a este pequeno “luxo” – o que não acontece nas outras dezassete cidades com o mesmo estatuto.
Adequar um epíteto à cidade de Bragança, algo que a ela se associe, não é uma tarefa fácil. Só, pois, com uma grande dose de generosidade me poderia ocorrer outro que não o titulado.