CARTA AO PAPA FRANCISCO

Santidade:
 
Quando da celebração do Centenário do Centro Académico da Democracia Cristã, de Coimbra, no ano passado, pediram-me para ali fazer uma conferência relacionada com a situação atual, depois de tantas décadas, passando em revista os factos mais relevantes desse longo período. Mais uma vez me feriu a atenção que estavam a manifestar-se sinais claros da previsão de Malraux sobre o século XXI, “que será religioso ou não será”. E por isso, naquela palestra, sugeri que seria necessário, desenvolver uma iniciativa que julgo devida ao grande Secretário Geral da ONU, que foi Dag Hammarskjöld, ao criar uma sala singela para meditação de todas as religiões. Também foi importante ter reparado, há anos, que o principal fator de gravidade do terrorismo, tornado evidente no ataque às Torres Gémeas de Nova York, que a Al-Qaeda tinha incluído valores religiosos no seu conceito estratégico. O estado do mundo neste 2015, com um aviso alarmante no massacre de Paris, voltou a impor a evidência de que existem nesta data guerras “nos quatros cantos do mundo”, que volta de novo, e com nova face, a evidenciar-se a velha linha do Cabo ao Cairo, que a área ocidental está desorientada com a multiplicação de conflitos que não cabem nos conceitos da estratégia clássicos, falando-se em guerras entre Estados, guerras interiores aos Estados, guerras alheias aos Estados, com um cortejo aterrador de crimes contra a Humanidade, mortandade de crianças, destruição de estruturas seculares, ou ainda as situações que não são de guerra nem de paz. As últimas intervenções de Vossa Santidade, quer pela palavra, quer pela presença, levam-me ao atrevimento de lhe enviar, e repetir, a sugestão que fiz na reunião de Coimbra: na ONU, em perda de autoridade, deveria ser criado, ao lado dos órgãos institucionais da Carta, um Conselho das Religiões, a estruturar segundo a experiência da ONU e a que tem sido ganha, sobretudo desde as reuniões de Assis, com as sucessivas iniciativas de encontros, conclusões, e ação, das Igrejas a bem da paz. Se a Igreja Católica tomasse a iniciativa, com respeito institucional, enriqueceria utilmente a contribuição que lhe pertence na doutrinação da paz, designadamente tendo enriquecido, com mestres, o património imaterial da humanidade, tão descuidado e violado neste século sem bússola.
 
Respeitosamente, o fiel