Carta a um deputado deslocado...

Visando denegrecer a imagem do Presidente da República, deputado socialista expenderia que «isto não é um Presidente, é um gangster». Ao fazê-lo, não enlameou a figura presidencial, como pretenderia, mas a sua, infinitesimal, se cotejada com aquela outra, por muito que lhe possa custar. Enquanto aquele representa, sozinho, o órgão maior da soberania nacional, o snr. deputado não passa de mero apêndice de um outro: se quiser, para ser mais rigoroso, um duzentos e trinta avos. Espelhe-se, pois, na sua ninharia política. “Isto” é vocábulo gramaticalmente utilizado para o material, para a coisa; de resto, depreciativo, desvalorizador, pretensão humilhante a respeito da pessoa a quem se deseja aplicar. Quanto ao resto, abstenho-me de comentários, pelo abjecto aí contido; aspasse, ao menos, em vez de grifar. Insurjo-me contra o seu gesto porque Cavaco Silva é o meu Presidente, muito embora sem o meu voto, de que nem necessitou. Assim como seu, aliás, por muito que isso se afaste do seu agrado. Quanto a si, não é meu deputado, na simples medida em que não dou como adquirido que a defesa do interesse nacional lhe fique sobrelevada aos interesses do partido que o elegeu. Se essa é a casa da democracia, dos pais da Pátria, de um órgão de soberania que se pretende respeitado e respeitador, então o snr. deputado está sentado no lugar errado, porque essa casa não é para si, ou o snr. não é para essa casa. A sua imunidade relativa, enquanto parlamentar (e só enquanto nessa condição), não o isenta do dever de respeito para com os outros, antes lho deveria acrescentar. E, apesar de tudo, não é impune, certo sendo ainda que a sua honra e a sua dignidade não se situam acima da honra e da dignidade dos outros, de qualquer outro, salvo daqueles que as perderam. Expendia um jurista, a propósito de algo que nada tem a ver consigo, que «o papel tudo aceita! O complicado é que a lei imponha que se tenha de provar o que se escreve». Ora, nada tendo a ver consigo o expendido, mas passível de generalização, a si deveria ser exigido que provasse a enormidade que escreveu, neste caso no twiter.
Presumo que o seu rancor se deva a Cavaco não haver acolhido de imediato a pretensão socialista, arrancada por efeito de manobras malabares de deplorável assalto ao poder de governar, poder intentado nas urnas, sem êxito, porém, êxito que outros conseguiram. Vezes múltiplas, a pressa é instrumento de quem pretende que as respectivas movimentações deslizem menos (a)percebidas, protegidas atrás de cortinas cinzentas. Não falta por aí outra gente afinada pelo mesmo diapasão, tocando os mesmos acordes sob o comando do mesma batuta, todavia não se aventurando tão longe na deselegância. Os mesmos que ontem criticaram o governo em funções legítimas e legitimadas nas urnas por pressões sobre o Tribunal Constitucional, que somente nos respectivos imaginários tinham lugar, são, exactamente, os mesmos que, desta vez, pressionaram, descarada e insultuosamente, o Presidente da República. A hipocrisia não conhece limites e alimenta-se de insensatez, por definição. (E nunca, como é sabido, os socialistas pressionaram a Justiça...). Tem passado uma falta de respeito inaceitável sobre a figura institucional da soberania suprema; curiosamente, cenário jamais assistido em tempos pretéritos com idênticas figuras.
Fique, snr. deputado, com o meu menosprezo, mais na sua qualidade de parlamentar, menos na de pessoa que, apesar de tudo, também é.
Escrevo segundo a antiga ortografia.