A «cegueira de escolha», o futebol e a política

A Psicologia tem vindo a aprofundar, cada vez mais, de uma forma experimental, os seus estudos a respeito da percepção e dos mecanismos psicológicos das escolhas e das decisões.
Num desses estudos, eram mostradas, aos voluntários do mesmo, as fotos de duas pessoas diferentes. Cada voluntário devia indicar o rosto mais atraente, após o que, sem que ele se apercebesse, eram trocadas as fotos, pedindo-se-lhe que justificasse porque escolhera aquela foto (que não fora a escolhida, mas a rejeitada).
E só 1 em cada 5 voluntários é que se apercebia da troca.
Os outros 4, olhando para a foto rejeitada, explicavam porque é que haviam escolhido aquela e não a outra. A este fenómeno, os cientistas chamam a «cegueira da escolha».
Como é que se explica este fenómeno e que consequências daí podemos tirar para o nosso dia-a-dia?
A explicação pode parecer complexa, mas é simples.
Os argumentos por nós utilizados para defender as nossas posições não têm, muitas vezes, qualquer coerência lógica ou moral, nem fundamento objectivo, sem que nós nos apercebamos desse facto.
Na verdade, o ser humano tem tendência a apreender a realidade de acordo com os seus esquemas ou quadros de percepção, mesmo que isso o leve muitas vezes, ainda que de uma forma subconsciente, a distorcer a realidade de acordo com a sua personalidade, os seus afectos, os seus interesses e as suas convicções.
Eu designo este processo por «egocentrismo cognitivo ou epistemológico».
Dêmos dois exemplos. Todos sabemos como a política e o futebol são vividos com paixão.
Recentemente, o treinador do FCP disse que Jorge Jesus ganhou em 3 campos, referindo-se ao penalti (inexistente) marcado contra o FCP no jogo com o Estoril e ao penalti não marcado a favor do Sporting contra o Rio Ave, mas omitindo que também ao Benfica foi negado um penalti no jogo de Guimarães. Só por esta minha referência, alguns leitores já terão percebido que eu sou benfiquista, porque um portista nunca denunciaria esta contradição e incoerência do seu treinador.
O mesmo se passa na política. Por exemplo, os militantes do PSD aplaudiram Pedro Passos Coelho quando este criticou o governo socialista por colocar os seus «boys» na Administração Pública, mas acham natural que o mesmo PPC faça exactamente a mesma coisa que antes criticava, como aliás, aconteceu com todos os governos anteriores, tanto do PSD e CDS como do PS.
O PCP nunca foi poder em Portugal. No entanto, os comunistas falam muito em liberdade e em defesa dos trabalhadores, mas aplaudem o monopartidarismo que vigora e vigorou nos países que são ou foram comunistas.
Condenam o «imperialismo americano», mas defenderam sempre a «solidariedade» socialista dos soviéticos, mesmo quando estes invadiam países como a Hungria e a Checoslováquia. E podíamos continuar a dar milhares de exemplos desta natureza.
Dos estudos feitos podemos concluir que, em cada 5 pessoas, 4 delas conseguem, sempre, engendrar argumentos a favor das suas posições, desde que isso vá de encontro à sua maneira de ser, aos seus afectos, aos seus interesses e às suas convicções, apesar de os argumentos serem muitas vezes contraditórios, sem coerência e nada sérios.
Por isso, eu gosto tanto daquela expressão do poeta Paul Éluard «eu vejo o mundo como eu sou e não como ele é», porque ela traduz muito bem os conceitos de «cegueira da escolha» ou de «egocentrismo cognitivo».