Como vamos de saúde?

A pergunta é pertinente, quer no plano individual quer no plano do Serviço Nacional de Saúde (SNS). Mais ainda perante a situação caótica verificada nas últimas semanas. Para mim, a saúde e a liberdade são os bens mais preciosos.  Sem liberdade, não somos cidadãos plenos, pois ficamos privados de direitos fundamentais. Sem saúde, ficamos incapacitados de usufruir do que a vida nos oferece do ponto de vista profissional e pessoal.
Na minha qualidade de eurodeputada, fui autora de um relatório sobre as "desigualdades na Saúde na Europa". O trabalho de preparação desse relatório - os estudos que li, os testemunhos que ouvi, os debates em que participei, os bons e maus exemplos que conheci - reforçou em mim a convicção de que, sem um sistema de Saúde de qualidade e acessível a todos os cidadãos independentemente dos seus rendimentos, não há verdadeira igualdade.
Com o novo ano, renova-se a esperança. Formulamos votos para nós, família e amigos. Acreditamos que o novo vai ser melhor que o velho ano. Não poderia ser de outra forma. É a esperança que nos dá alento para enfrentar as dificuldades que, independentemente da nossa vontade, transitam com o calendário. Mas, ao contrário do que pretende o primeiro-ministro, nem mesmo os dias soalheiros conseguem afastam as nuvens escuras que ameaçam os portugueses. O sol, o fogo de artifício, o glamour das passagens em versão televisiva podem ajudar a esquecer momentaneamente as dificuldades, mas não alteram a realidade.
A melhor radiografia do estado do país é o que passa no SNS. Durante demasiado tempo, o ministro gozou de "boa imprensa" e conseguiu iludir a situação. Com o caos instalado nas urgências de vários hospitais e a morte de vários doentes depois de longas horas de espera sem serem observados por um médico, já não é possível continuar a esconder o sol com a peneira. Este governo está a destruir o SNS. A política de desvalorização da saúde pública e de proteção do setor privado desenvolvida por este ministro obrigou centenas de médicos e enfermeiros a emigrar. Médicos e enfermeiros que, como se vê, fazem muita falta nos nossos hospitais públicos.
Por outro lado, também por razões economicistas, os doentes afetados com hepatite C veem ser-lhes negado o medicamento que representa a diferença entre a vida e a morte anunciada. O medicamento é caro. Muito caro mesmo, mas por que razão o governo português não negoceia com a indústria farmacêutica a redução do preço? A Espanha negociou e conseguiu reduzir para menos de um terço. A França para menos de um sexto. E o Egipto para um valor insignificante. O governo português em vez de negociar, corta (os cortes cegos são a prática destes três anos, com os resultados conhecidos), desrespeitando os direitos dos doentes e sem ter em conta que, a longo prazo, os custos de um transplante hepático ou do tratamento continuado de um cancro pesarão muito mais no orçamento do Estado.
O que se passa na Saúde confirma a urgente necessidade de mudança. Precisamos de um novo governo e de novas políticas.