Consideração…

A caminho de uma aldeia transmontana tradicional, mas peculiar. Vê-se de longe pois que adormecida entre montanhas. Na rota do Sabor, por uma das estradas possíveis, através de uma nesga oferta da natureza, vislumbro uma pedra preciosa encravada nos verdes multicores, pinceladas de um génio que era uma vez por ali passou.
As curvas, benditas curvas, que nos obrigam ao espraiar da visão, sacodem-nos donde vimos e oferecem-nos o sossego, de graça. Os olivais saúdam-nos, as amendoeiras riem-se, os carrascos amparam-nos, as giestas abanam-nos, os erectos zimbros avisam-nos, os montes e os céus juram que nos adoram. È só seguir as brancas estevas das pintas pretas e lá chegaremos num pulo.
A passagem da ribeira, com águas cantadeiras de vozes cristalinas e com objectivos desaguantes, informam que é já ali. A meio do estradão umas Alminhas obrigam ao respeito, à benzedura e aos olhares laterais, coisas de cada um.
A Praça surge do nada, o Conselho dos Velhos acena-nos e a Igreja, como de costume, abraça-nos. Perguntamos à Tia Maria, sempre de olho na porta do templo, se viu o Dr. João. Afiança que ainda há pouco, ele, o cavalo e a poeira por ali passaram.
Com uns setenta anos enrijados pelos ventos da Frieira, habita um socalco debruçado no vácuo. Aos pés da casa, nas fraldas da montanha, o Sabor corre a caminho do Douro. Há cerca de quarenta anos, na pujança da vida, foi colocado na sede do Concelho, na nobre arte de ensinar Português. Comprou um canto nos arredores, aqui, no olho do mundo. Enviuvou há cerca de uma década, o filho foi sugado pela capital, vive com o gato Mateus.
Conhece-nos de ginjeira, sabe ao que vimos, as dobradiças rangem de satisfação, entramos. O Lar está aceso, vivo de um vermelho quente e acolhedor, o escano cheio de almofadas espera-nos. A casa é um templo, preservado e oferta à amizade. Os livros, as faianças, os relógios de corda, os vidros coloridos, as fotos paradas no tempo, a nostalgia do ar, os rádios de ouvidos abertos e a voz de caverna do Dr. João, ingredientes para noite bem passada, de conversa, petisqueira, recordares e palpites.
Foi o palpite que aqui nos trouxe. Somos dois velhos alunos do mestre, na estrada do jornalismo, regressamos à toca, no farejo. Sabemos, anos de convivência, da intuição do velho amigo. Ele, alma gémea do Fernando, sim, do Pessoa, gosta dos céus, dos riscos, dos astros, das curvas, dos cruzamentos, das distâncias, das relações equidistantes e dos juízos.
Já tarde, lua alta, estrelas fixas e de olhares faiscantes, vinho escorrido e alegrete, cordas bocais desentupidas e de acordo, conversas trocadas e a pergunta, esperada, surge de rajada: Professor, que acha do Costa em Primeiro - Ministro?
Rapazes, o olfacto preparou-me. Pois bem, atendendo ao posicionamento celeste, ao tempo certo, aos costados, às linhas, aos concêntricos, aos dizeres, às alianças, ao equilíbrio espacial e ao presente, está escrito nos Astros, Costa merece-me toda a Consideração…  Considerar = Com os Astros (sideral