Costa e Marcelo: de Machiavelli a Richelieu

No próximo Domingo, dia 24 de Janeiro de 2016, realizar-se-ão as eleições para o sétimo Presidente da República Portuguesa, no pós-25 de Abril, e para o quinto da respectiva ordem constitucional, instituída pela Assembleia Constituinte em 25 de Abril de 1976.
Nunca antes umas eleições presidenciais foram tão atípicas. Primeiro porque, praticamente, por um acordo a três (Costa, Marcelo e Passos Coelho) elas decorrem quase à margem dos partidos. Segundo, porque, pela primeira vez, o PS não apresenta um candidato formal. Em 1985, apesar de haver dois candidatos socialistas, Mário Soares e Salgado Zenha, o PS propôs Mário Soares mas, agora, surgiram quatro candidatos militantes do PS (Henrique Neto, Tino de Rans, Cândido Ferreira e Maria de Belém) e ainda um, não militante, abandonado por Costa quando conveio a este (António Sampaio da Nóvoa) em termos da dinâmica constitutiva do Governo, da silenciação das hostilidades no interior do PS face à construção do acordo à Esquerda, e das negociações com a Direita.
O acordo a três permitiu a Marcelo aparecer como o salvador da pátria, não precisando os partidos do Centro-Direita e da Direita de dar a cara por ele, ao mesmo tempo que Marcelo transmitia a mensagem de que ele é que é verdadeiramente democrata, socialista e social-democrata e que, com ele, António Costa terá uma governação em diálogo institucional.
Mal perceberam as jogadas de Costa e a inevitabilidade da vitória de Marcelo, o PCP e o BE deixaram de apoiar Nóvoa, abandonado à sua sorte e à dos seus apoiantes. Para Costa, Nóvoa era apenas uma carta num baralho, sendo possível deixá-la cair em termos da pacificação do diálogo com a Direita, mesmo se à custa da agitação do interior do PS, onde Maria de Belém se aprestou para fazer a «guerra» interna.
A Costa, o nosso Romano Prodi, o terceiro líder ocidental a arregimentar um partido comunista para o Governo, depois de François Miterrand e Romano Prodi, temos de render a homenagem de «um condottieri» maquiavélico, que leva a água ao seu moinho, pelo menos enquanto os adversários não se organizam. As lideranças baseadas na mera aliança de circunstância não duram muito tempo mas Costa dá mostras de tudo querer fazer para que a sua seja durável, pelo menos enquanto as forças externas ao país não o encostarem à parede.
Não demorará muito para que tal aperto aconteça. Revogar, eliminar, repor são três verbos que só devem ser conjugados com propriedade e justeza. Costa já repôs despesa de quase 2.000 milhões de euros, a que já acresceram os 2.500 milhões do BANIF e os presumíveis 2.000 milhões do BES. Pelo meio, a renegociação de 11.500 milhões de dívida ao FMI parece ter dado algum alívio aparente mas Costa está no fio da navalha. Cairá mais depressa do que julga arrastando consigo o sofrimento desnecessário dos socialistas e dos portugueses.
Nessa altura, de nada lhe valerá ter Marcelo como Presidente. Este, fiel discípulo e seguidor de Richelieu, depressa colocará Costa no lugar de Mazzarino.