A crise da civilização ocidental

O mundo construído no Planeta Terra revela aspectos desconcertantes. Resta saber se algum dia esteve concertado, no sentido de em harmonia e em equilíbrio, porque já Heraclito dizia que ninguém se podia banhar duas vezes nas águas do mesmo rio. Por isso, apesar de o mundo e Portugal, uma milionésima parte daquele, parecerem estar loucos e quase em apocalipse, é melhor pensarmos que a dinâmica de mudança é a característica principal da natureza e das sociedades humanas e que talvez não haja outra perspectiva saudável de olhar para esta confusão toda senão pensar que se trata de confrontos e de desordens provocados quer por conflitos de interesses, tanto geoestratégicos como internos aos vários países, quer por reivindicação de igualdade de direitos entre os povos, que, quase setenta anos depois de Declaração Universal dos Direitos do Homem, parece ser um valor a fazer parte do inconsciente colectivo de toda a humanidade.
Para aqueles que perdem o seu sossego, os seus privilégios, o seu lugar primacial nas sociedades, direi mesmo, para muitos, alguns dos direitos que constituíam um bem-estar não partilhado, o medo perante o futuro, a reserva perante a abertura à concessão de direitos aos outros, estrangeiros e estranhos incluídos, a simples perda de algumas regalias, mesmo se excessivas, a desordem actual aparece como a imagem do caos e da desgraça.
Para aqueles que acham que também eles podem participar do bem-estar construído durante séculos na base das relações capitalistas e soviético-socialistas, e que era uma reserva de alguns, trata-se de uma aventura necessária para melhorar a sua situação, uma aventura que exige risco, sofrimento e agressão aos autóctones de cada país e civilização. Muitos deles fogem por medo da guerra, outros a pretexto da guerra, outros ainda para fomentar a guerra, em nome de Deus e de uma civilização construída a partir de uma certa concepção de Deus.
O Ocidente, se tal representação ainda existe como entidade constituinte de um processo de hegemonia na regulação mundial, treme só de pensar que pode estar a ser islamizado e que, face à torrente humana de crianças e jovens fanatizados no Islão, pode vir a ser islamizado por via violenta. Tal receio cresce face ao fim dos serviços militares obrigatórios, ao desarmamento dos países ocidentais, ao envelhecimento das respectivas sociedades, e aos apelos ao pacifismo nas relações internacionais, propícios a novas aventuras irracionais por povos-outros.
Nunca terá passado pelas cabeças de Renan, de Spencer, de Nietzsche e de Heidegger que a queda de Deus, que reivindicavam, perante a ciência e perante a técnica, para dar lugar à razão e ao Estado Laico, daria também lugar a uma deriva de valores (ou anti-valores) que lançaria a humanidade nas garras do ateísmo e do capitalismo selvagem e a deixaria sem perspectivas de organização para o bem e para a comu(m)nidade.
Um século depois, sem ainda terem percebido que a humanidade não pode viver sem um Deus, de preferência racional, os líderes das sociedades ocidentais deixaram os respectivos povos à mercê dos novos absolutismos religiosos. O Islamismo é apenas um deles. E como, a médio prazo, um absolutismo só se pode combater com outro absolutismo, parece estar a chegar ao fim a aventura da civilização ocidental. Com ela, também morrerão a democracia, a liberdade e o capitalismo enquanto modelo de criação e acumulação de riqueza por particulares, próprio da social-democracia.