A crise e as suas causas – 1

Por mais que queiramos, não podemos fechar os olhos à crise. E é impossível pensar na crise sem pensarmos nos seus responsáveis ou nas suas causas.   

Neste âmbito, a questão que se coloca é esta: quais são as causas da nossa crise?

Na resposta a esta questão, uns dirão que as causas são de ordem externa, enquanto outros dirão que são de ordem interna. Entre as causas de ordem interna, apontam-se as seguintes: a incompetência e a corrupção dos sucessivos governos PS, PSD e CDS; a incompetência de toda a classe política e a hipocrisia de todos os partidos com assento na Assembleia da República. Entre as causas de ordem externa, alguns apontam as seguintes: a austeridade imposta por Ângela Merkel e a troika, o modelo do Estado Social, a globalização, o sistema financeiro mundial, o sistema capitalista no seu todo.

Afinal de contas, qual destas é a verdadeira causa da nossa crise? Apenas alguma delas em particular, ou todas elas em geral?

Nesta edição ficarei pela análise das causas internas, deixando para o próximo número a análise das causas externas.

Em primeiro lugar, penso que os 3 partidos do poder têm grandes responsabilidades na crise. Todos eles – PS, PSD e CDS - são responsáveis pelo clientelismo obsceno com que alimentam os seus apoiantes à custa de nomeações para cargos públicos por critérios político-partidários; pelos exércitos de assessores, adjuntos e quejandos, criados nos gabinetes ministeriais e em muitos outros lugares da Administração Pública, sem serem precisos; pelos negócios ruinosos do Estado nas grandes empreitadas públicas, nomeadamente nas parcerias público-privadas; por algumas obras eleitoralistas completamente desnecessárias; pela derrapagem criminosa de algumas obras públicas, de que o Centro Cultural de Belém, adjudicado por 9 milhões de contos e concluído por 40 milhões, é um exemplo flagrante; pelos favores políticos concedidos aos amigos na criação de Bancos - como o BPN – e de universidades provadas; pela política criminosa do Alberto João Jardim, alimentada pelos governos de Lisboa; pelas centenas de Fundações que funcionam à custa do erário público; pelos ordenados obscenos dos directores dos Institutos e empresas públicas, etc.,etc.

Em segundo lugar, mesmo os partidos da oposição – PCP e BE - não podem sacudir totalmente a água do seu capote, porque insistem, por mera conveniência partidária, num número exagerado de deputados e de cargos políticos pagos com o dinheiro do erário público, porque votaram sempre por unanimidade a lei do financiamento dos partidos à custa do dinheiro dos contribuintes, porque nunca os vi protestar contra as regalias dos autarcas e da ANM, porque nunca os vi protestar, na Assembleia da República ou na rua, quando foram estabelecidos os estatutos dos políticos e as suas regalias em termos de reforma, porque os vejo muitas vezes a protestar pela manutenção de empresas públicas falidas, com trabalhadores indiferenciados a ganharem vencimentos de profissionais altamente especializados.

Perante este cenário, coloca-se outra questão: a diabolização da classe política esgota as causas internas da crise portuguesa? Para respondermos a esta questão, formulemo-la de outra forma: os cidadãos «apolíticos» não têm qualquer responsabilidade na crise? E se substituirmos a actual classe política por outra, será que a crise fica resolvida? Se tivéssemos sido nós os responsáveis pela governação do país, o que é que teríamos feito de diferente? Pelo menos, teríamos acabado com a corrupção, dirão alguns. Mas quem é que escolheu os políticos e a classe política? Nós não temos qualquer responsabilidade nisso? E os outros, os que ficam comodamente no seu sofá à espera que os demais decidam por si, sem se preocuparem com nada, também não têm responsabilidade alguma?  

A crise nunca terá solução enquanto andarmos a apontar o dedo aos outros e não olharmos para o nosso umbigo.

Por critérios editoriais de espaço, deixaremos para a próxima edição a análise das causas externas da crise.