A culpa é dos outros

 
 1. Na vida pessoal, como na vida social e política, um dos piores males é a tendência de querermos sempre imputar aos outros as responsabilidades dos males que acontecem. Isto é, de nos livrarmos das responsabilidades individuais, por nós e pelos outros. Ou, pelo menos, de diminuirmos as nossas responsabilidades. No limite, é a tendência para sermos irresponsáveis inocentes. Este impulso manifesta-se logo nas crianças; mas cresce e ganha sofisticação na astúcia dos adultos. Nem vale a pena querer demonstrar este fenómeno; todos o conhecemos muito bem.
2. Mas há exageros. E inclino-me a pensar que hoje está crescendo exponencialmente, entre nós, um tal exagero. Refiro-me à nossa vida económica, social e política nacional. Por um lado, a patética lamentação da crise, que encharca as nossas conversas e sobretudo a nossa comunicação social, já se torna doentia. Se os nossos avoengos, que viveram em épocas de muito maior pobreza, doença, insegurança e desgraça, tivessem caído numa queixa proporcionalmente tão negativa e paralisante, de certo não nos teriam deixado praticamente nenhuma herança que não fosse choro e ranger de dentes.
3. De modo especial, e em relação à nossa crise, está hoje na moda culpar sempre a Europa e a Senhora Merkel — ultrapassando os americanos, que costumavam ser historicamente os piores da fita. Quando se vai um pouquinho além desta referência primária pessoal, então alegam-se entidades também primárias como a conjuntura internacional, a crise do capitalismo, etc. Não faltam culpados; nós, cada um de nós, os políticos que elegemos nos nossos municípios e na República, a Constituição que fizemos e as instituições que reverenciamos, isso é que não; ou, no máximo, ficam cá muito mais abaixo, na lista dos responsáveis.
4. Há uma trágica alienação colectivista nisto tudo. Cada um de nós se considera com direitos, mas sem deveres, perante si próprio e os outros, perante a República e o mundo. Ao contrário dos tempos dos nossos antepassados, em que cada um assumia o dever primário de cuidar de si e da sua família, fossem quais fossem as circunstâncias naturais ou sociais, mesmo injustas; e de além disso ser solidário na sua proximidade.
5. Com dizer isto — note-se bem —, nem por sombras se pretende diminuir a eminente importância da solidariedade social, e a legitimidade de a invocar, nos dois sentidos que ela comporta: de mim para os outros e dos outros para mim — porque a solidariedade social é reciprocidade de que ninguém está excluído. Mas apenas criticar o ocaso do primeiro pólo fundamental humano, que é a liberdade-responsabilidade da pessoa; e do segundo pólo, também fundamental, que é sofrer e enfrentar em igualdade e em solidariedade os males colectivos e o seu remedeio.
É que a prioridade no enfrentamento de uma grave crise económica, financeira, social e também política, como a que nos afecta, tem de ser a sua remediação em esforço colectivo e solidário. Se não, seria como, no fim de uma guerra, em vez de todos porem mãos à obra da reconstrução, se ficarem por recriminações e julgamentos eternos. Há um tempo para criticar, que não pode nem deve omitir-se; mas há um tempo para que cada um assuma a dignidade de ser o primeiro responsável de si próprio, e não o último. E para que não se fique como profissional de queixas: político, jornalista ou sindicalista.
6. Tem-se dito repetidamente, por estes dias, que os portugueses se tornaram todos socialistas, porque cada um acha sempre que merece mais, que a sua corporação está a ser mal tratada, e que o colectivo nacional tem de, sem discutir como nem quanto, lhe dar ou manter o que ele acha que é necessário. Só há uma aceitável atenuante para esta mentalidade: é que o Estado tem vindo a querer (querer é o termo) dar tudo a todos, e em monopólio e de graça ou quase de graça, quando a verdade é que o Estado só pode dar o que antes tira. E nesta intermediação, de primeiro tirar e depois dar, gasta muito inutilmente, reduzindo drasticamente a que a sociedade produz. É uma deseconomia.
Se não fizermos um esforço de racionalidade e de ética do nosso Estado social, enfrentando esta irracionalidade política, através das necessárias e justas reformas, provavelmente destruiremos o bom que já construímos — e nunca foi atingido antes na história —, que é a ideia de um Estado de Direito Democrático em solidariedade social.