A culpa não é do Desporto (Parte I)

O desporto, quando praticado com certas e determinadas intencionalidades, permite o desenvolvimento das capacidades e potencialidades do indivíduo, proporciona um conjunto de experiências/vivências que lhe permitirão estabelecer interacções com outros indivíduos e com o contexto em que se insere, bem conduzida pode ser uma mais-valia para a sociedade.

Atualmente vivemos numa sociedade que, de certo modo, se esqueceu destas potencialidades que o desporto traz. Segundo o Eurobarómetro Especial da Comissão Europeia estima-se que os hábitos de vida (alimentação, tabagismo e sedentarismo) sejam a causa de mais de 80% dos casos de morte prematura por doença coronária; sendo que Portugal destaca-se como o país da Europa com maior taxa de sedentarismo. Mas os efeitos negativos de um estilo de vida pouco activo não só se fazem reflectir na doença mas igualmente a nível económico. “Para cada euro investido em programas de promoção da saúde envolvendo a actividade física verifica-se uma redução de 4,9 euros nos custos com o absentismo e de 3,4 euros com os cuidados de saúde” (CDC, 2002). As repercussões da falta de actividade desportiva parecem-me evidentes, sendo a meu ver causada essencialmente pela maior importância dada a educação intelectual, invés a dita “física”.

A Câmara Municipal de Bragança é conhecedora desta situação. Desenvolveu um esforço financeiro para a construção e requalificação de diversos equipamentos desportivos (campos multiusos em cada bairro, piscinas municipais, ciclóvias entre outras) apostou igualmente no financiamento de clubes e associações desportivas; o que representou não só uma decisão política de importância vital para o município, como procurou colmatar as necessidades a nível de infra-estruturas e a dinamização desses espaços. 

Contudo, torna-se cada vez mais inadequado “semear” os equipamentos e fundos monetários sem que previamente haja um estudo mais pormenorizado sobre a realidade social da cidade. Primeiro pelo pouco aproveitamento das infra-estruturas construídas, muitas delas ao abandono ou utilizadas sazonalmente o que representa desperdícios de recursos. Estas situações surgem essencialmente pela sua falta de dinamização, mas igualmente pelo facto destas mesmas se focaram numa inadequada faixa etária; se tivermos em conta que a população de Bragança é maioritariamente idosa. 

Assim sendo, a implantação de futuros equipamentos e acessos a fundos não se deverá limitar apenas a construção de espaços físicos mas sim à forma como são dinamizados e como são utilizados esses fundos por parte das instituições desportivas; essa distribuição deverá decorrer segundo as necessidades e características das populações locais, obedecendo a estratégias de desenvolvimento da região. Daí que seja fundamental uma visão de conjunto e integrada sobre o ordenamento do território, onde o planeamento dos equipamentos e acesso ao financiamento desportivos deve ser devidamente enquadrado e fundamentado, para uma maior rentabilidade dos fundos dos contribuintes.