A Cultura do Mérito e as Quotas de Género

No âmbito de uma conferência promovida recentemente pela Secretária de Estado para a Cidadania e Igualdade, Catarina Marcelino, que teve por objectivo dar a conhecer algumas medidas no combate à violência doméstica, foi também aí divulgado que em breve iria ser apresentada legislação para definir as quotas de participação de género nas empresas do sector empresarial do Estado.
Não obstante estar longe de pertencer ao “clube” dos machistas, jamais poderia concordar com a criação de um mecanismo legal para fazer face a um fenómeno que se situa na esfera das mentalidades. Porque é difícil conceber que, numa sociedade tão preconceituosa quanto a nossa, as mentes retrógradas possam achar qualquer bondade numa Lei que as ponha em causa.
Se fôssemos uma sociedade mentalmente evoluída – em que os valores da cidadania não são regulados por decreto, mas pela predisposição dos seus membros para os compromissos da civilidade -, estou certo, a mulher estaria mais representada do que o homem na vida pública, nos lugares de decisão, pela simples razão de que ela é comprovadamente muito mais competente, mais versátil, multifacetada, mais responsável e idónea do que o eterno e inevitável “rival”.
Assim como me faz alguma confusão que um indivíduo, incompetente e sem currículo, seja nomeado para este ou para aquele lugar de topo, apenas pelo cartão partidário, também a ascensão da mulher ao poder, pela via das quotas de participação de género, e não pelos critérios da competência, me provoca tal sentimento. Pelo que, estou convicto, nesta visão, não estaremos a criar uma sociedade mais justa, igual e paritária, mas, ao invés, artificial e ficcionada.
Por se tratar de um fenómeno iminentemente cultural, e porque é premente (para ontem) uma revolução de mentalidades – trabalho cujos frutos não aparecem de um dia para o outro -, julgo que o mais sensato seja, em vez de se decretar sobre comportamentos que não são decretáveis, que a discussão sobre a revolução cerebral tivesse lugar na própria família e nos bancos da escola.
Bem diferente é a questão da violência doméstica, um fenómeno para o qual a sociedade, em pleno século XXI, ainda não despertou nem parece estar sensibilizada tanto quanto o mesmo requer. Os dados oficiais são verdadeiramente assustadores: em 2015, 45 mulheres foram cobardemente mortas às mãos dos companheiros e maridos (na maioria das vezes, tomados pela cegueira do ciúme), autênticas alimárias, seres desprezíveis.
Ao contrário do fenómeno da paridade, o combate à violência doméstica - não excluindo, como é evidente, o trabalho pedagógico, de sensibilização, que conduz à identificação das causas que, directa e indirectamente, lhe estão associadas -,  só pode ser eficaz, se forem criadas leis que possam garantir às vítimas, mulheres e crianças, a segurança capaz de as afastar dos predadores.
Aqui é Portugal no seu melhor: reconhecido por todos que a violência só pode ter uma resposta eficaz, se o problema for combatido no quadro da multidisciplinaridade, é mais do que evidente que o trabalho/plano multi – sectorial desenvolvido entre o Ministério da Justiça, da Administração Interna e da Igualdade não tem dado respostas satisfatórias; pelo que, por força dos resultados que ninguém ousa negar, deve ser revisto com a maior das urgências possível.
 Embora os propósitos não se anulem, penso que a imposição de quotas de género, a fazerem sentido, só seriam aceitáveis, em termos de prioridade, se a mulher deixasse de ser o saco de boxe de autênticos selvagens frustrados.
Evitá-lo é, pois, responsabilidade de todos nós.