Da passagem do ano ao dia de Reis, em Soeima

Dei um salto à minha residência habitual, para passar a véspera e o dia de Natal, comemorar o nascimento do Menino com os meus familiares mais próximos, regressando a Soeima, aqui assistindo à passagem de ano (mais um...) e ao dia de Reis. Havia muito que não o fazia, e estava expectante acerca do que se iria desenrolar.
Entretanto, já me deliciara com a apreciação do presépio, estrategicamente implantado na praça da aldeia, em enquadramento bem conseguido. E não me passaram desapercebidas as iluminações do pequeno espaço adjacente, da fachada da capela e da varanda do edifício da Junta de Freguesia. Enorme tronco no meio da mesma praça serviria de mote à reunião de pessoas à sua volta, aquecendo-se e aquecendo a noite, tradição que não se esgota no tempo. Já havia visitado o jardim da sede do concelho, com as árvores profusamente iluminadas, um presépio composto de figuras avantajadas, onde não faltavam dois motivos representativos da aldeia, saídos do carinho das mãos que delicadamente os confeccionaram. Se em tempos e nesta mesma publicação havia opinado sobre o gesto nobre de devolver o mesmo jardim aos cidadãos, encontrei agora motivo de reforço para a mesma opinião.
A transição do ano aconteceu na intimidade, longe do bulício que se repete nestas ocasiões, em ambiente caloroso de amizade familiar. Poucos, mas bastantes para encher uma casa de alegria, boa disposição, calor humano, dialogantes ao longo da noite que, sendo longa, tão rapidamente se esgotou. Pela televisão íamos assistindo à mudança de dia e de ano lugar a lugar, consoante o mundo geográfico, de oriente para ocidente, dos antípodas até nós. Desta casa fomos observadores privilegiados do fogo de artifício lançado, abundante relativamente ao expectado. Víamo-lo arrancar do chão até se abrir, metros acima e céu pouco alto, em flores de múltiplos coloridos, a emprestar formosura maior à noite: era a luz de flores a juntar-se ao som das doze badaladas.
O grande momento deste período temporal ocorreria, porém, após um suave toque de campainha, uma voz anunciando-nos que iríamos usufruir do cantar dos Reis. Franqueada a abertura, um grupo de adultos abeirou-se da entrada da casa, saudou-nos. E mostrou ao que vinha. Instrumentos musicais e vocais entoaram com mestria notas e versos bem compostos, delícia para os ouvidos. Aplaudimos sem favor e convivemos agradavelmente por alguns momentos, lembrando o importante de manter vivas tradições que participam da nossa cultura, repleta de riquezas como esta. Ficámos enternecidos, orgulhosos, felizes, pelo momento ímpar vivido. Despediu-se o grupo, cantando. Obrigados ficamos, rendidos à gentileza do Snr. Abel, da Helena e da Catarina, da Paula e da Cláudia, a todos parabenizando pelo seu gesto, tão amigo quanto artístico. E que não se esqueçam de nós para o ano, se para o ano por cá estivermos.
Escrevo segundo a antiga ortografia