DE MATEMÁTICA EM PUNHO

As superbactérias são hoje um dos mais sérios desafios à saúde mundial como, aliás, refere a OMS no seu relatório de 2014 onde afirma que estamos a caminhar para uma era pós-antibióticos em que estes, tais como os conhecemos hoje, estão a perder, progressivamente, a sua eficácia. Sabe-se que o uso indiscriminado e desregrado destes medicamentos conduziu a esta situação. Os investigadores estão a procurar novos fármacos mas há um trajeto longo pois nalguns casos é necessário regressar à casa de partida e reiniciar todo um processo longo de procura, descoberta, teste e certificação que mesmo quando bem sucedido, é muito moroso. Entretanto as superbactérias estão a multiplicar-se, a dispersar-se, a aumentar a sua resistência e a matar. A atacar violentamente o sistema imunitário de forma que já perspetiva o cenário de se voltar ao tempo em que uma infeção comum ou um pequeno ferimento pode voltar a matar, como alerta a Organização Mundial de Saúde no relatório citado.
Ora é aqui que entra a matemática.
É uma situação complexa e de difícil resolução, porque a continuação da utilização dos antibióticos pode contribuir para continuar a deteriorar o atual problema. Se, por um lado devem ser usados nos casos em que ainda são eficazes, por outro, o seu uso, mesmo respeitando as regras conhecidas e aplicadas, poderá contribuir para o agravamento da situação existente. Porque estas regras, embora razoáveis, foram estabelecidas pelas boas práticas verificadas experimentalmente, para vários casos, de forma a que sejam eficazes em todos eles. Mas os casos em que se aplicam, por bem parecidos que sejam não são todos iguais. E, para que não sejam insuficientes para muitos deles é necessário que seja recomendado o seu uso, nos restantes, por excesso. Qualquer excesso, como facilmente se compreende, poderá traduzir-se num revés para o combate eficaz, se não no caso em que se aplique, pelo menos nos casos subsequentes. E a matemática entra onde, perguntar-me-á Entra precisamente aqui. Erida Gjini do Instituto Gulbenkian de Ciência e Patrícia Brito do CEDOC desenvolveram modelos matemáticos que permitem que a utilização dos antibióticos, em vez de ter um uso pré-definido em dose e tempo, seja adaptado, caso a caso, à dinâmica da evolução da infeção e à resposta do doente permitindo uma utilização personalizada. São os profundos conhecimentos de matemática e a sua aplicação que permitiram às duas investigadoras o desenvolvimento destes modelos que a prestigiadíssima revista da especialidade Plos Computational Biology consagrou e reconheceu numa edição recente.
 
Se outras e fortes razões não houvesse para a aposta nesta disciplina este é mais um contributo para o reforço no seu ensino e divulgação. Que atentem nisto os responsáveis do Ministério da Educação e que não tentem ceder ao facilitismo que, podendo ser popular, é altamente prejudicial ao futuro comum. Já era conhecida a base metemática para a resolução de vários problemas de várias disciplinas. Os biólogos e bioinformáticos vêm agora alargar o espetro da sua aplicação.