De mera convicção à força da certeza

A «convicção ... permite pôr, com a consciência tranquila, o tom da força ao serviço da incerteza» (Paul Valery). Em boa verdade, serenidade de consciência não pode ser marca de quem (ab)use da mera convicção para camuflar ou branquear a incerteza. A convicção é subjectiva e anárquica, esponjosa e maleável, justificação de pretensões, falácia, império de sentidos, ela e a circunstância. É objectiva a certeza, granítica e imoldável, não serve nem hipoteca interesses. Pelos corredores da morte vaguearam, por longos anos, carregadores de convicções terceiras, portadores de bilhetes de ida sem direito a regresso. Em vez de vidas suspensas por força  da certeza, transparente, cimentada em trabalho de busca e honestidade, suor e sacrifício, precisão e virtuosismo, verdade. E não é a verdade pretendida a que deve contar, mas a única, decapada de ardis ou tramóias, de batotas ou jogos malabares e engenhosos que intentem transformar o verosímil em mentiroso e este naquele. Não pode limpar-se com o pano da ignorância a verdade inocultável e fazer-se que se crê na mentira que todos vêem. Não podem inverter-se verdade e mentira para a fabricação de resultados pretendidos e perseguidos. Nem devem permitir-se orquestras afinadas de maus tratadores da verdade, onde não faltam tenores e sopranos, caídas na tentação de obediência a sinaléticas desenhadas por quem se deleita aos acordes arrancados em músicas impróprias. E, quando se requer a verdade e só a verdade, ilícito se faz que os que dela deveriam ter a missão de probos requerentes possam, por alguma via que seja, condicionar, constranger ou perturbar aqueles que, de forma honrada, trilham o caminho certo para a atingir, inteira. Honrada, mas incómoda, se valores mais altos se alevantarem. Quanto mais rude a convicção se pretender, instrumento de perigosidade maior ela se poderá tornar para o aspirante à verdade: a tentativa de articulação do contraditório poder-lhe-á ser negada, quando não agitado o intimidatório, de permeio. Na realidade, tantas vezes o livre arbítrio comanda o mando. É convicção minha (à convicção honesta eu tenho direito) de que, em certos casos e para certa gente, a convicção encaixa  papel ajustado de instrumento conveniente ao serviço do engano da própria convicção. Da mesma argamassa da convicção se organizam as pedras do “disse que disse”, quando em busca da verdade que é mentira, sem se cuidar de pensar que esse pode ser (e é) campo fértil para a proliferação de múltiplas perversidades. Desprezado o factual não assistido e (a)creditado o meramente “ouvido”, que pode ser tudo o que se queira, lealdade para uns, mas traição para outros e para com o acontecido, cenário agravado pelo cercear do direito ao exercício do contestatório, fica adubado o campo para a germinação tranquila do efeito perverso, assim se cumprindo, nem sequer o «... o tom da força ao serviço da incerteza», mas da mentira...
Escrevo segundo a ortografia antiga