Do Ano Velho

Apenas os bafejados pela sorte nos jogos da Santa Casa têm motivos para estarem gratos ao ano ora findo. Nem os sportinguistas lhe ficam agradecidos, nos derradeiros dias do seu reinado perderam o ceptro de campeões de Inverno.
O mofino ano foi pródigo em desgraças, fervente nos calores a prolongarem-se Outono fora, avaro nos remédios de alma, do corpo. Do abraço entre a insanidade e o fanatismo resultou uma onde de perseguições, miséria, tortura e morte. O progresso da ciência e da técnica teve como contrapartida a multiplicação de muros de desonra, vergonha, racismo e exclusão, desculpabiizados através de envernizadas trivialidades, de gongóricas afirmações de princípios.
As vozes de apelo à sensatez, ao respeito dos direitos dos outros foram abafadas através de quebra-vozes movidos a petróleo barato, especulação financeira – os tais mercados –, sem esquecer os interesses regionais cujo epicentro nesta altura é algures entre a Síria e o Iraque.
Os cínicos erguem os estandartes do relativismo, do sempre assim foi, do entre mortos e feridos alguém irá escapar. A recente conferência de Paris teve o condão de salientar o crescente mau efeito do desperdício e desvario acumulador, a elite dos poluidores chineses sofre as consequências na capital imperial, os restantes e graves malefícios expressos nas mortíferas conflitualidades riscadas nos gabinetes de estratégia fazem o resto. Este grão resto alimentou durante meses a fogueira na Ucrânia, afoga milhares de famintos vindos do Médio-Oriente apostados em entrar numa Europa ouriçada, na qual avulta e impera a Comunidade Europeia, também ela inchada de convulsões e contradições.
No ano 2015 continuámos a viver, por cá, agarrados aos bordões conhecidos, imersos na nossa pequenez, sanhudos na exaltação das bagatelas, atados em despiques numa clara imitação dos meninos de bibe e calções acolchoados. Reparemos a nível regional.
Se um concelho leva a efeito substanciosa iniciativa, o concelho vizinho em vez de conceber outras de igual talante ou melhorar a exitosa, prefere o exercício mimético, deixa medrar o apoucamento, às vezes vai ao ponto de colocar pedregulhos na via do seu desenvolvimento.
Segundo o cânone do adequado planeamento deve valorizar-se a visão de longo prazo acerca do evoluir das Comunidades, reflectir-se no que concerne à perspectiva e prospectiva, atender-se aos efeitos demográficos, elencarem-se o deve e haver dos activos existentes para além do «pé da porta».
O não se proceder deste modo custa caro; em fazenda, em recursos humanos. No fito de não ferir susceptibilidades recorro ao distrito de Santarém como exemplo do mau gasto dos dinheiros públicos. Reparem: três grandes hospitais rentes entre si: Abrantes, Tomar e Torres Novas. Dois Institutos Politécnicos: Santarém e Tomar. Em vez do adequado planeamento prevaleceu a vaidade, a presunção, o localismo pacóvio.
O Ano Novo vai chegar, vai gastar-se dia a dia, os males que apoquentam o País exigem esforço, vontade, desejo, sentido cooperação; o Nordeste em triplo. Ora, tantos e tão ingentes tarefas implicam pontos de cooperação, aglutinação de conhecimentos, qualidades de liderança. Liderança.
Bom Ano Novo.