Dois em um. Dois…

 Dois dias após a visita à enorme albufeira gerada pela barragem do Baixo Sabor/montante e ao novo e magestático Santuário de Santo Antão da Barca ali para os lados da Freguesia Parada/Sendim da Ribeira do Concelho de Alfândega da Fé resolvemos passar ao segundo objectivo da viagem. O Mensageiro de Bragança tinha levantado o véu.
Na penumbra da madrugada de um belo dia de Setembro e após um lauto pequeno-almoço em varanda com vistas para os amendoais que descem a partir dos Cerejais, tudo a postos.
Agora, novos tempos com novos trajectos, o IC5 coloca-nos em Mogadouro à velocidade da conversa e na calma dos tempos. Após passagem pela Capelinha de Nossa Senhora do Caminho, epicentro dos caminhos que a Santiago de Compostela levavam, bem como aos arredores, e que aqui se cruzavam, lá prosseguimos viagem pelo interior profundo do nordeste transmontano. As ruínas de Penas Roías, cujas silhuetas projectadas no azul celeste nos lembram imagens fantasmagóricas, acenam-nos lá do pináculo rochoso onde habitam. A estrada serpenteia em vale ondulante, umas vezes em planalto da meseta outras nas vertigens estonteantes de descidas com vistas de beleza impar, prodígio da natureza que um dia as pintou.
Algoso aproxima-se, o Castelo roqueiro impõe-se no horizonte, sabemos que uma das esquinas da torre, de cada lado das duas faces, guarda soberba curiosidade: duas placas comemorativas de visitas, uma de Américo Tomás e outra de Mário Soares (dizem que Mário Soares recusou que se retirasse a do Presidente do velho regime).
Os estômagos avisam que Vimioso estará por ali, uma das mesas do restaurante do Hotel Rural de Sr.ª De Pereiras espera-nos. Os sabores transmontanos que por aqui abundam são alento para a vontade de conversar. O Mensageiro de Bragança tinha-nos espicaçado.
 Os melhoramentos, a reabilitação, os trabalhos técnicos dos artífices, o empenho de mestres, o apoio estatal, do Bispo de Bragança, do Papa, do Estado e da Europa, tudo nos diz que o reencontro superará as expectativas. Trocamos muitas impressões acerca do que íamos encontrar. Sabíamos já que aquando das invasões napoleónicas foram saqueadas, de nichos frontais, fabulosas estátuas em bronze que se encontram no Museu do Louvre em Paris e que são consideradas Património da Humanidade. Questionamos o que o Estado Português, à luz do Direito Internacional, fez para a recuperação deste riquíssimo património nacional.
A caminho e umas dezenas de quilómetros galgados, imediatamente depois da entrada em Outeiro, após curva apertada, aparece do nada e de repente, a imponência, o irreal, o que ninguém imagina, o impossível por estas bandas, na nossa frente e numa brancura celestial estava a Igreja Santuário do Santo Cristo do Outeiro, património nacional desde 1927, elevado a Basílica Menor pelo Papa Francisco I.
Com a ajuda duma senhora do povo, guardiã de grandiosa Chave do Templo, revisitamos a alma da Basílica, 1698-1713 entre início de construção e abertura ao culto. O retábulo do Altar-Mor e as pinturas da Sacristia contagiam o mais leigo apreciador de arte. A requintada Rosácea que encima a porta da fachada principal tem os blocos de sustentação desalinhados, efeito do Terramoto de 1755. Duas aldeias transmontanas, duas jóias. Cumprida a segunda meta da viagem, outra aldeia. Dois em um. Dois