Dois em um. Um…

Agosto tinha-nos deixado. Estava decidido, há muito programado, na primeira semana de Setembro seria o reencontro. Lá partimos, uns do Porto e outros de Lisboa, íamos como se fossemos para as Termas, procurávamos a paz de espírito, a junção das forças positivas de cada. Levávamos na bagagem dois destinos, dois locais de contemplação, religiosos e patrimoniais, de duas aldeias transmontanas.
Desta vez, com a caravana de Lisboa, seguia uma prenda, um acrescento ao mundo, um neto. É um novo trajecto, esquema fura-portagens, por A23 proibitiva com ida-e-volta, ganhamos outros voos, outros rumos, doutro arejo, por detrás da Serra Maior, a da Estrela. Sentimos cada vez mais a A1, como estrada fast-food, com cuidados no consumo, entediante, monótona e quebra conversas. Sair dela é um alívio, a aventura vem depois.
O IP3, de minha criação, via perigosa mas já domada, com locais paraíso que suplicam a paragem ainda não disponibilizada, serve apenas como entretanto para galgarmos rumo a Oliveira do Hospital, de passagem por largo. Após subida do IC6 o cume espera-nos, os ventos espreitam e o fresco aproxima-se. Os ares, aqueles ares nascidos em bom ventre, refrescam-nos pulmões mirrados pelos vícios da civilização, o longe espevita-nos os olhares mortiços, os ondulares montanhosos puxam-nos a mente para o nascer do mundo e a visão de Seia, ali mesmo ao alcance de um míope, mostra-nos como um povo, hercúleo, sabe trepar na sobrevivência.
Mas o fito, o fito da intermédia paragem, velhinha de Idade Média, jóia encravada em verde multicor, que se não deixa enxergar da via principal, sabia do nosso prazer, mandou limpar os céus para nos receber. Linhares da Beira parou no tempo, cada beco ou viela é um postal ilustrado, dos antigos, as pedras da calçada olham-nos da altivez da História, o imaculado asseio envergonha os sítios donde partimos.
O Castelo, majestoso, de recuperação soberba, sem acrescentos mas apenas com consolidações e mostrares do antes, transporta-nos para as vidas de alguns que nos trouxeram até aqui, o alto é um hino ao grito, apetece gritar, sentir a liberdade. Aqui, no meio de nós, com o afago dos pais, o nosso neto Gabriel irradia de e para o cosmos. Ali, especados num centro imperial, avistamos o longe, o nosso, o Portugal que somos.
 Após saboreio do ansiado café, após os conversares que alentam, lá prosseguimos rumo a Celorico da Beira, Alfândega e, enfim, Sendim da Ribeira.
Aqui, o grupo do Porto, irmãos, primos e cunhados, cruzaram os beijos e abraços. As amendoeiras e oliveiras, velhas conhecidas, acenaram-nos lá dos montes onde moram. As poucas almas que por estas bandas erram cedo as encontramos nos locais do costume, ficamos a saber, por suas falas, vão andando na paz do Senhor.
Após dois dias nas procuras e receberes, nos recordar e aprender, nas conversas e silêncios, lá chegou a data, tudo preparado, carrinhas tracção quatro-rodas a postos. À espera, ali mesmo, nos meandros de Torre de Moncorvo, Alfândega da Fé, Mogadouro e Macedo de Cavaleiros, pertinho do Sendim da Ribeira, nasce o sonho, o paraíso, a seiva da natureza, a imensa água, o azul da vida, cobra em zig-zag por entre os mais deslumbrantes montes que conheço, vestidos de asfixiantes multiverdes, de castanhos Van-Gog, calmantes de mentes inquietas. Da Barragem do Baixo Sabor/Montante, em enchimento, germina albufeira gigante, sessenta quilómetros em extensão serpenteante desde o cruzar das águas dos Rios Maçãs e Sabor.
Como altar de contemplação, com os generosos esforços de gente anónima, da Igreja e da EDP, fomos até ao novo Santuário de Santo Antão da Barca, arrancado das profundezas de majestoso vale, erguido para cumes seguros, de imponentes vistas. A Capela, transportada pedra a pedra, recolocadas pelas mãos da ciência, encontrou novo chão, novo Lar, parece que o parto foi por aqui. Os Frescos, dizem-me que de excelência, por magia, estão no sítio. Valeu a pena a partida, Trás-os-montes ergue-se para a História. Com a bênção da Igreja, com a ajuda dos tempos e das gentes eis um local de êxtase, de deleite, de contemplação, de paz. Cumprida a primeira meta da viagem, uma aldeia. Dois em um. Um…