Duetos

A soprano Laura Pausini canta num musical pop. Há dias deu uma entrevista a explicar a causa, acrescentando não querer duetos de alguns quando morrer. Duetos sim, mas apenas de quem ama e gosta. Gosto de duetos de qualidade, gosto de Laura, obrigando-me a gastar euros a fim de a ouvir e ver. Depois de morto morri, além de não esperar árias ou canções apesar de amigo canto lírico.
De duetos guardo na memória vários, a tecnologia cometeu a proeza de misturar as vozes de mortos e vivos, caso da família King Kole.
A Pausini é selectiva, assim fosse seguido o seu exemplo, ganhávamos em sinceridade impedindo a compre de gato por lebre, diminuindo as possibilidades de êxito de aves canoras especializadas no mimetismo, na preguiça intelectual escondida debaixo de pseudo conhecimento logo colocado a nu quando directamente interpelados. Do confronto fogem qual raposa perseguida em campo aberto por galgo desembaraçado.
Dois ensaístas – António Guerreiro e João Barrento – explicam quão necessário é estarmos atentos a tais aves canoras, sempre assoberbadas de soberba, nunca assoberbadas no estudo, na investigação, na explicação científica e cultural das suas obras. Claro, Guerreiro e Barrento pensam, não se estribam no trabalho alheio.
Há anos um intelectual de límpida água e fino humor colocou anúncio num jornal a informar os seus leitores da existência de uma entidade especializada na elaboração de todo o género de teses na área das Humanidades. Sem surpresa surgiram interessados.
Em Bragança já lembrei como nos idos do século passado, pelo menos até aos anos setenta, as senhoras selectas tomavam chá e comiam torradas no recato das suas casas trazendo nas malinhas de mão o papelinho anotador das carências dos rebentos. Logo o influente clã estabelecia contactos de maneira a os meninos alcançarem notas impeditivas de irem a exame. Dispensavam, livrando-se da raposa mais que certa. O dueto entre o mandrião e o estudioso favoreceu, sempre, o primeiro. E agora? Se souberem informem.
Aos das aldeias e os remediados da cidade não lhes restava outro caminho, o de estudarem afincadamente e, mesmo assim ficavam prejudicados. Rapazes e raparigas do meu tempo conhecem episódios soberbos de ridículo.
Para evitar apertos abolimos as fronteiras da selecção, aplaudimos as canoras, olvidamos tenores e sopranos porque obrigam a estarmos atentos.
Aguardo com expectativa a actuação do antigo editor João Soares, o incentivo à leitura necessita de agilidade e conhecimento no fito de contrariarmos o estilo: escreve como fala.