A economia de Deus

Deus é muito económico. Deus nunca desperdiça, sempre pesa custos e benefícios, tudo dispõe «com conta, peso e medida» (cf. Sb 11, 20). As provas disso são inúmeras, mas poucas tão evidentes como uma das frases mais esquecidas do Evangelho: «E o anjo deixou-a» (Lc 1, 38).
Nossa Senhora era imaculada e cheia de graça desde a sua concepção, mas não sabia disso. Certamente achava que toda a gente era como ela, porque nunca lhe tinha sido dito que era diferente. Como Deus é muito económico, só quando foi preciso enviou o Seu anjo para lhe comunicar isso. E o anjo nã podia ser mais económico: cumpriu a sua missão e depois deixou-a.
Nós nunca faríamos assim. Se fosse alguém humano a conceber este processo, era evidente que o anjo ficaria por ali, com poderes especiais e bolsa bem recheada, para qualquer eventualidade. O que nunca aconteceria era que, após comunicar a notícia mais da história da humanidade, aquela boa nova que o povo judeu esperava há milénios e para a qual tinha sido preparado cuidadosamente, que o anjo se fosse embora e tudo voltasse ao normal. Com apenas uma pequeníssima diferença, que só seria visível daí a semanas, mas que mudava tudo.
Connosco passa-se a mesma coisa. Tantas vezes achamos que a importância do momento da nossa vida merecia, se não a vinda de um anjo, ao menos uma inspiração especial. Mas só fica o silêncio Claro que temos o nosso anjo da guarda, como a Senhora tinha o seu. Deus não nos abandona um instante sequer, pois «é nele que vivemos, nos movemos e existimos» (Act 17, 28). Mas não damos por isso.  «Na verdade vós sois um Deus escondido,o Deus de Israel, o salvador» (Is 45, 15). É que Deus é muito económico.
Sabemos bem como é dessa atitude de Deus que nasce a nossa liberdade; é nisso que se funda o facto de sermos feitos à Sua imagem e semelhança(Gn 1, 26). Deus não é uma mãe-galinha que afoga os seus filhos. Por isso, é essa economia de Deus que nos permite ter mérito. O facto de Ele se esconder, de poupar nos meios, dá-nos possibilidade de acreditar naquilo que é evidente em si mesmo, mas que a nossa natureza exige esforço para aderir. Como Deus é muito económico, até arranja espaço para que os minúsculos seres humanos dêem o seu contributo na obra que é só d’Ele. Também na redenção, Cristo faz tudo, mas de forma tão económica que temos de completar na nossa carne o que falta às Suas tribulações (cf. Cl 1,24).
Deus é muito económico. Por isso deixou o Rei do univeeso, o Senhor do Céu e da Terra quase sem meios, na dependência de uma menina perdida numa aldeia do fim do mundo. E até o anjo a deixou. Depois daquele que é o momento mais decisivo da história humana, tudo ficou igual. E o silêncio desceu sobre a casa.
Foi um silêncio curto porque, logo a seguir, «Maria pôs-se a caminho e dirigiu-se à pressa para a montanha» (Lc 1, 39). Havia trabalho a fazer e, apesar de ser a mulher mais importante de sempre, não iria ficar inactiva. É que Nossa Senhora, Mãe de Deus, é muito económica.