Eleições: as dúvidas de Maria

 
Maria é uma cidadã empenhada e responsável. Natural de Portugal, seus pais e ela própria nunca fugiram aos impostos e sempre pugnaram pelo interesse geral contra os interesses particulares, fossem eles individuais fossem de grupo ou fossem ainda de corporação. Noventa por cento dos portugueses acham-nos estúpidos por isso. Para legislativas, Maria sempre votou no mesmo partido e a sua alternativa esteve sempre entre o PSD e o PS. Porém, este ano, Maria hesita e coloca mesmo a hipótese de votar em branco.
Porquê, Maria, perguntei. «Porque as duas candidaturas são medíocres e demagógicas fugindo à discussão dos problemas. Depois, uma vez no Governo fazem sempre o mesmo: aumentar impostos para sustentar “as gorduras” do Estado». Como é que uma DEMOCRACIA pode produzir líderes desta irresponsabilidade e incompetência?», respondeu-me ela. Insisti então: mas, Maria, votar em branco é votar nas duas candidaturas, proporcionalmente aos respectivos votos. «Então, diga-me lá o que é que faz a diferença entre as duas candidaturas?», atacou ela.
Respondi-lhe então. Bom, a retórica e a semântica são diferentes mas a forma de governar e os resultados da governação são de facto iguais. No entanto, nas legislativas de 1999 e de 2009, os portugueses deram uma segunda oportunidade ao PS embora sem maioria. Será que a vão agora dar também à Coligação PàF? Passos Coelho e Paulo Portas parecem pelo menos mais conhecedores da realidade do país e das suas condicionantes internas e externas mas Costa já evoluiu na consideração da economia e das finanças como o factor fundamental da governação.
«Então, como hei-de decidir o meu voto?», voltou a insistir Maria. Mas corroborei. Confesso-lhe que não vejo qualquer razão para mudar a sua forma de votar. À falta de argumentos para votar a favor de qualquer destas duas candidaturas, também não vejo argumentos para mudar o sentido de voto, de PàF para o PS ou do PS para PàF, se não quer votar em branco ou votar em qualquer outra candidatura. Só vejo mesmo o facto de os portugueses gostarem de dar segundas oportunidades.
Olhe, os critérios da dívida pública e do défice têm de ser respeitados. É preciso pôr a economia a crescer para gerar emprego e impostos que se traduzam em receita do Estado. Este não pode ser um empregador mas um administrador de mais condições para o dinamismo económico. Ainda por cima, o Estado tem de desfazer-se do que dá prejuízo para não aprofundar o défice. O pior é que há-de vender também o último anel, a Caixa Geral de Depósitos, uma vez que os portugueses não aceitam cortes de rendimento, sobretudo quando são feridos dos princípios da universalidade e da equidade.
«Então, tem mesmo de haver cortes», atalhou Maria. O que é que acha de um país que, ano após ano, aparece com 10.000 milhões de euros de défice?, respondi.
«Bom, vou votar como de costume. Ainda será a melhor solução», concluiu Maria