Eles levam tudo ..eles levam tudo!...e não nos deixam voar!...

“Também já nos tiraram o avião”, era um dos títulos que o “Mensageiro de Bragança” evidenciava no interior da última edição, fazendo referência à suspensão da carreira aérea entre a capital do distrito a Lisboa.

Confesso que, quando soube da notícia, além de ficar triste e indignado, sobretudo pela falta de respeito de quem nos governa, pela nossa interiorização, veio-me à memória a altura em que, na minha juventude, foi desativado o “Quartel da Tropa”. Lembro-me das manifestações promovidas contra a retirada dos militares de uma cidade de fronteira, mas que ainda permanecem em Vila Real e Chaves, e de chegar a ser erguida a bandeira espanhola. A revolta era geral. Os brigantinos barafustaram mas de nada adiantaram. Os militares partiram em retirada e não deixaram nada. Apenas o edifício, onde hoje está instalada a Câmara Municipal, porque não o puderam levar. Uma perda importantíssima para a cidade e a região, nunca mais reparada. Antes pelo contrário.Aliás, a partir daí, temos assistido a um contínuo esvaziar asfixiante de bens e serviços da região que nos coloca numa situação constrangedora, a todos os níveis. E se ficar sem identidade no que toca à presença das Forças Armadas foi uma desclassificação, não é menos verdade que o cancelamento da Linha do Tua até Bragança constituiu uma “ferida incurável” para a nossa mobilidade! Assisti, na altura, ao aparato montado para levarem o comboio de Bragança, pela calada da noite. Foi um espetáculo tão triste quando desumano, para nós, os brigantinos de “gema”. Porém, fomos impotentes para evitar que nos “roubassem” o que, por direito, nos pertencia. Mas não me esqueço da resistência de algumas forças vivas da cidade, nomeadamente do presidente do NERBA, na ocasião, Fernando Guilherme, e dos dissabores que a sua postura contestatária lhe provocou. Claro que não temos a força física ou eleitoral, nem potencial económico para evitar que nos desprezem e segreguem, retirando-nos daqui o que bem lhes apetece. Agora, já nem sequer nos deixam voar!...

Todavia, podem-nos levar muitas coisas, serviços, bens materiais, etc. Podem, como parece estar a acontecer, não concluir o túnel do Marão e demorar a aprontar a auto-estrada, mas há algo de valor inestimável que não nos conseguem tirar, a nossa dignidade, a identidade e capacidade de resistir, mesmo quando nos “cortam as asas” que nos podiam levar de ida e volta a Lisboa. A suspensão da ligação aérea é, com efeito, mais do mesmo, sobretudo a manifestação de falta de vontade política para combater os nefastos critérios de desigualdade entre o litoral e o interior profundo. E, neste contexto, não venham falar de custos, porque, se esse fosse o motivo, muito teríamos a haver, quando comparados com o despesismo subsidiário dos transportes em Lisboa, ou das ligações aéreas para as ilhas.

E, se outras instituições têm uma responsabilidade acrescida para contrariar este triste desfecho, as câmaras municipais das duas capitais de distrito, não podem “encolher os ombros”. É que, por este andar, como diz o nosso cantor, Zé Ferreira, qualquer dia também nos levam o Castelo!...

 

Nota: A este respeito, aconselho a ler um texto assinado pelo jornalista, Daniel Deusdado, na edição do JN, de 29/11/2012.