Em desagravo dos transmontanos

Maldição esta do povo português, no seu jeito teimoso de tecer juízos de valor ou de alinhar caricaturas objectivando terceiros sem cuidar de, previamente, burilar auto-retrato que transporte virtudes e defeitos próprios. Isto no sentido de empecer o caminho para a construção de figuras tristes a partir de tristes figuras. Apelintrou-se espiritualmente e conspurcou-se de grotesco o músico, ao qualificar de «medonhas, feias e desdentadas» as pessoas transmontanas. Mau grado não as ofender quem queira, incomodam-nas alguns, ainda que desprezo lhes mereçam (e merecem). Porque filhas e netas de boa gente. Não podem ocasionar repugnância ou ter-se por hediondos aqueles que lutam árdua e quotidianamente por uma vida digna e honrada, respeitando para serem respeitados, amáveis na hospitalidade sem retribuição, que se despojam do melhor para quem aparece. A fealdade somente lhes pode ir nas rugas, sulcos cavados pelo suor no amanho penoso das terras e por lágrimas vertidas nas horas amargas, gente abandonada por outras gentes. Desdentados aqueles que roeram o pão que o diabo amassou, duro, suado, sofrido. Porque os transmontanos não nasceram em berços de ouro, nem calçados. Mas calçaram-se. Não vieram ao mundo nobres, mas sabem sê-lo. Não são fidalgos, mas conhecem a fidalguia, em terras onde os pobres são ricos de galhardia. Põem afinco e delicadeza no seu trabalho para que outros, bem instalados, usufruam dos mimos que as suas mãos calejadas vão gerando no ventre das terras.
Viram o mar os transmontanos: muitos o atravessaram para ganharem as vidas noutras paragens, para lá do Bojador ou além das Tormentas, acrescidas tormentas outras que quotidianos padrastos lhes foram reservando, todavia sem os vencerem. Mar que não procuraram, como outros, para o divertimento fútil, antes trilho útil para o desbravamento de outras terras e torrões. Nem do mar precisaram para se tisnarem, tisnados ficando no trabalho sob raios de sol escaldantes, também fustigados por ventos ou neves, chuvas ou granizos.
Para lá de defeitos outros que carregará, deixa o músico revelado e relevado o da etnocentricidade, como se a sua cultura, de pares e afins fosse a única válida ou a mais valiosa, desprestígio para as demais que da sua se distanciem. Como se houvesse melhores e piores, mais ricas ou mais pobres, mais valiosas e menos valiosas, e não, pura e simplesmente, diferentes culturas.
Os transmontanos são mulheres e homens trabalhadores dignos e honestos, com vontade de aço e carácter talhado no zimbro, sabem honrar a palavra dada e a promessa feita, para quem o contrato escrito não passa de mera formalidade que os tempos modernos consigo carrearam. Respondem com estoicismo às adversidades e, se caem, sabem reerguer-se. Trás-os-Montes foi, é e há-de ser alfobre de mulheres e de homens distintos nas ciências, nas técnicas e nas artes, na palavra e na escrita e, em casos muitos, na boa governação.
Se muralha haveria que erguer, seria ela, não para quebrar a passagem da música transmontana, ao invés barrar a subida até nós de certas músicas e de certos músicos que, não nos embalando, nos tiram o sono. 
Escrevo segundo a antiga ortografia.