EM QUEM OU EM QUÊ?

É conhecido o ciclo breve da memória dos eleitores e da forma como muitos eleitos disso fazem uso, em proveito próprio. É recomendável que não abusem eles mesmos de idêntica falta de memória mais que não seja, para evitarem desilusões e prejuízos irrecuperáveis.
 
Muito se tem falado da democracia representativa e do sentido de voto popular, nestes últimos dias em que todos e cada um dos que se sentam na Bancada de S. Bento reclamam a interpretação da vontade dos eleitores que, levados à letra facilmente conduziriam a um autêntico paradoxo pois pelso vistos a mesma ação conduz a resultados opostos de acordo com quem a interpreta. Garantem uns e provam-no que o atual governo nasceu da expressão clara dos vtantes nas eleições passadas; juram outros e demonstam-no que o governo em funções foi gerado nas costas dos eleitores e à revelia do resultado do mesmíssimo ato eleitoral. O problema é que, partindo de uma base comum e indiscutível extrapolam, ambas as partes, para um facto que não é de todo exato e daí a confusão. O governo saiu da vontade dos deputados eleitos e a pretensa falta de legitimidade advém da vontade de outros, igualmente eleitos. E o equívoco reside precisamente aí. É que o voto, em Portugal, não é em deputados. O voto é em projetos! Que, obviamente, serão interpretados, com toda a legitimidades, por deputados. Mas é bom que estes entendam que não é a sua vontade pessoal, muito menos a sua carreira política de curto ou médio prazo que foi sufragada, embora esta possa ser natural consequência da realização política da opção popular.
Para nos entendermos melhor, vejamos um caso concreto. Os militantes e simpatizantes do Partido Socialista do distrito de Bragança fizeram eleger para a Assembleia da República, Jorge Gomes. Se a opção destes votantes fosse personalizada neste conterrâneo, ao ser chamado para o governo da nação, deixaria sem representação todos os que nele depositaram a confiança política. Estaria sem legitimidade a sua substituição pela nordestina Julia Rodrigues. O que acontece é que os eleitores votaram num projeto que quem melhor o interpretava, na ótica nordestina, era Jorge Gomes, mas que igualmente será defendido, à sua maneira, sem dúvida, pela agora deputada. Só assim se entende e assegura a legitimidade das substituições de deputados pelos que lhes seguem nas listas sufragadas.
Não é por um deputado ou um grupo de deputados mudar de opinião ou decidir interpretar de forma diversa o mandato que recebeu que todos os que nele confiaram mudam igualmente de objetivos e anseios. É bom lembrar que esta lógica foi testada e o resultado é bem conhecido. Em 1987 o PRD entendeu que o derrube do governo minoritário de PSD seria premiado pelos eleitores. Nada mais errado!
Seria bom que os deputados da antiga maioria pensassem bem nisso antes de decidirem a estratégia a adotar na oposição que terão de fazer ao atual governo minoritário do PS.