Engraxadores

Uma luminária governamental ou aparentada há dias disse em palavras de grotesca solenidade que uma das profissões a incentivar de modo a combater o desemprego era a de engraxador. Referia-se ao acto de limpar calçado humano, porque no referente a engraxadores manteigueiros e limpa botas há excedentes em todos os círculos da sociedade em geral, e no do poder em particular. O infeliz propagandista do incremento de engraxadores revela quão lhe indiferente é a qualidade de vida dos seus concidadãos, pois ninguém dotado de bom senso e memória desconhece a curvada e dolorosa vivência dos polidores de sapatos a fim de ganharem o sustento deles e dos seus em cada dia, mesmo quando os dias de borrasca afastavam e afastam os clientes. O engraxador está associado ao homem que por uma qualquer razão não tem possibilidades de desempenhar outro ofício, seja devido a incapacidade física, seja por via da velhice, ou um qualquer desgosto a tolher-lhe cometimentos diferentes no campo do trabalho. Os marçanos passavam a caixeiros, muitos destes conseguiam ascender a estabelecidos por conta própria ou em sociedade, os pedreiros, os carpinteiros, os marceneiros, os mecânicos e tutti-quanti das profissões braçais tinham e têm à sua frente melhores modos de vida, já os engraxadores estão confinados à sua triste sina. No passado, em Bragança operavam vários engraxadores especialmente aos domingos, em manhãs soalheiras na praça da Sé, também gastavam energias nos cafés sendo no geral muito estimados pelos clientes, às vezes recebiam gorjetas, no mais o apagado movimento semanal não lhes permitia grande folgança. Desses tempos do século ido guardo boa recordação do Cantaria o qual após ter envergado anos a fio a camisola do Desportivo se viu na contingência de fazer luzir sapatos alheios, lembro o Mudo no mesmo exercício e o famoso Zé Luís, dotado e animado nas saídas repentistas plenas de verve não deixando ninguém sem resposta, fosse ele rico ou manga de alpaca, casca grossa ou delicado cavalheiro, mesmo os senhores do mando não escapavam à sua vivaz loquacidade. Ainda circulam na cidade tiradas da sua lavra, os rapazes da antropologia e da sociologia ganhavam melhor conhecimento da comunidade de então, se as estudassem. As memórias têm o condão de evitar o apagamento de pessoas e profissões, no entanto, no caso em apreço, era bom sinal se a de engraxar fosse definitivamente enterrada, sobrevivendo somente o anedotário a ela ligada. Estes dirigentes…