A “Epidemia” dos Destacamentos na Classe Docente

Em jeito de adenda a tudo o que, sobre o assunto, foi noticiado pela comunicação social (regional e nacional), no final do mês de Agosto – como não podia deixar de ser, o mesmo mereceu honras de manchete no Mensageiro de Bragança -, parece-me importante introduzir uma outra dimensão do problema, porque sem ela corremos o risco de não compreendermos o que verdadeiramente está em causa.
Por mais do que uma vez, sempre que elegi como tema, por esta ou aquela razão, “ a nobre profissão”, destaquei publicamente, com enorme satisfação, aquele traço que distingue os professores das demais classes profissionais: a união e o espírito de solidariedade entre eles.
Em resultado das novas políticas de ensino postas em prática nos últimos anos, este romantismo que perfumava a relação entre a numerosa, multifacetada e heterogénea classe docente foi completamente aniquilado. Hoje, ao contrário de outros tempos, os professores perderam a autoridade e o respeito que a sociedade sempre lhes reconheceu.
As medidas tomadas afectaram de tal modo a sua dignidade, que é raro aquele professor que, estando no activo, não anseie pela reforma. Uma grande parte daqueles que recentemente se retiraram, fizeram-no não porque tivessem atingido a idade e os descontos que garantiam esse direito, mas por não terem as condições psicológicas para o exercício da profissão que, durante mais de trinta anos, abraçaram com tanto empenho e dedicação. Pelo que se imagina uma saída com um enorme sentimento de frustração e de mágoa.
É sabido que muito do descontentamento e da insatisfação dos professores decorre, entre muitas outras razões, da entrada em vigor dos novos quadros de zona pedagógica, introduzidos pelo Despacho n.º 6969/2014, de 28 de Maio. Um diploma que concebendo, por exemplo, que um professor de Bragança ou de Miranda seja colocado em Lamego ou em Sanfins do Douro, provoca a desestruturação da família (um valor sagrado num país tão profundamente católico), um factor que, por sua vez, faz mergulhar quem é afectado por tal injustiça num profundo estado de depressão.
Torna-se claro que ninguém, tocado pelo bom senso e pela razoabilidade, põe em causa a pertinência e justeza da lei que define as regras que, no âmbito do regime especifico de mobilidade, reconhece “…a necessidade de protecção e apoio aos docentes na doença, quer pessoal, quer do cônjuge ou da pessoa que com aquele viva em condições análogas à dos cônjuges, descendente ou ascendente que estejam a seu cargo…”.
Em abstracto, a norma que estabelece tal princípio parece pacífica. No entanto, a sua bondade é completamente comprometida pela forma como os ditos quadros de zona pedagógica foram geograficamente arquitectados. Em boa verdade, por muito amor que uma pessoa tenha à profissão, qual é o professor que, com 25/30 anos de serviço, se sente motivado para leccionar numa escola que dista da sua área de residência 150/200 quilómetros?!
Da minha parte, nas mesmas circunstâncias, se fosse professor, para obviar a tais constrangimentos, não poderia garantir se não seria tentado a recorrer à “marosca” (se é que ela existe e se confirma!), subvertendo uma lei que, em condições normais, seria a ideal para responder às situações em concreto (as razões atendíveis) que a mesma contempla. 
Pois, como não me sinto capaz nem tenho o direito de julgar os actos de quem quer que seja, e porque desconheço, obviamente, as motivações que quem, aparentemente, agiu de acordo com a sua consciência, fico-me pela mais triste e inegável das constatações: esta situação torna-se incómoda e desconfortável para os professores que “legitimamente” fizeram pela vida, considerados os maus da fita; e, por sua vez, teve o condão, espante-se, de pôr os professores uns contra os outros – o que me transporta para a ideia de já ter visto isto em qualquer lado!