Equidade…

Pelos jornais, através dos meios de informação, a força das palavras impõe-se, subtilmente. Uma, desde o 25 de Abril, acompanha-nos ao longo da vida. Ficamos a conhece-la há cerca de quarenta anos. Os entendidos traduzem-na, dizem-nos que se trata da justiça moral.
Apesar de no-la terem dado a conhecer, a constatação demonstra à exaustão o desprezo a que foi votada. Os políticos que nos têm governado se nela tivessem tropeçado, de frente, de forma assumida e leal, aqui chegaríamos mais unidos, mais fraternos, mais felizes. No ponto de partida, na queda do velho regime ditatorial, o fosso separador entre a elite e o povo era enorme, com a democracia agigantou-se.
A Escola Primária, muda e solitária, a dormir junto à Igreja, perto do adro que todos conheceu, tem alpendre acolhedor virado a Sul. Aqui, desde que à aldeia regressaram após aposentação, encontram-se regularmente dois amigos de infância, aqui nascidos e criados, cujas vozes infantis ainda ecoam e vagueiam no recreio circundante. Para aqui, para debaixo do alpendre, arrastaram uma mesa, duas cadeiras e um banco corrido, obra de Bóbó, mestre carpinteiro, que Deus guarda. Chova picaretas, raios ou coriscos, com tempo núbio ou soalheiro, por aqui é ponto de encontro diário, deles e de mais alguns compinchas.
João regressou em 95, aposentado aos 60 anos, era engenheiro num Instituto Publico em Lisboa. Alberto chega em 2000, reformado aos 65, era economista e técnico de contas numa grande empresa de construção civil, no Porto. Sempre se deram bem, desde o jogo de pião, à volta desta escola, até aos reencontros natalícios, aos quais nunca faltaram. Conversam muito acerca do risonho passado infantil, mas também sobre o triste futuro que se vislumbra nos ares.
Nunca concordaram com os tabus que atravessaram gerações, de que se não pode falar de determinados assuntos pois que são populistas, próprios de mesquinhas invejas. Como são da velha guarda entendem que tais desentendimentos devem ser conversados pois que pertencem ao foro do senso comum.
Já a democracia ia em velocidade de cruzeiro e, com a ajuda de sindicatos retrógrados a situação era esta:
- Sector publico: aposentação entre os 52 e 60 anos de idade e entre 30 e 35 anos de serviço. Reforma por inteiro. Sistema de saúde ADSE e todas as suas mordomias. Isenta de despedimentos.
- Sector privado: aposentação aos 65 anos de idade e 40 anos de serviço. Reforma com 80% do ordenado base. Sistema de Saúde Segurança Social com todos os constrangimentos conhecidos. Carne para canhão, abastecedor do contingente dos desempregados.
- Políticos de toda a espécie: aposentações pontuais, chorudas, por terem ocupado postos políticos de curto espaço de tempo. Mordomias principescas e as malfadadas subvenções vitalícias, afronta repugnante a um povo massacrado pelos que até aqui nos trouxeram, eles.
Sócrates mandou parar o baile mas permitiu o continuar do toque da orquestra. As Corporações conhecidas nunca mais lhe perdoarão a afronta. Transportarão para o além esse ódio visceral e de estimação.
Para bem de todos, contribuindo para a paz social, chegou a altura do Governo e Presidência da Republica, Costa e Marcelo, lutarem pela igualdade, ouvindo o senso comum. É tempo da justiça moral, da Equidade…