Ergam-se…

Sabe-se, pressente-se no dia a dia, é voz corrente, contam-nos, muitos somos nós, a televisão informa, lê-se nos jornais, as cantinas sociais mostram, o número agiganta-se e serão, com toda a certeza, para cima de meio milhão, são os desempregados deste país que somos. A Constituição averba que o emprego é um direito, mas a Assembleia legisla o contrário, a facilidade nos despedimentos é murro no estômago, é seta envenenada, é vergonha de um povo. Apesar deste ter sido o Governo que mais espezinhou quem caiu na valeta, na sarja, a pergunta é, onde estão os desempregados?
Aos jovens, aos nossos jovens, a democracia oferece o desespero, o aviltamento: empregos de miséria, desemprego ou emigração. No entanto, deles esperamos a indignação, o levantar do querer, o sopro da mudança, o mudar da agulha, novo rumo, a reposição de Abril.
O chão foge-lhes dos pés, os jardins concentram-nos, procuram atentos confidentes para seus chorares, vivem dos nadas, os bolsos e a saúde, de mãos dadas, esgueiram-se pelos magros dedos, olhos cavados concentram a estupefacção, braços caídos mostram-nos almas vazias, são os avós e pais dos homens do leme, são a força do trabalho que nos trouxe até aqui, são os reformados dos tempos, são o Senado de Portugal.
Nada nos dizem sobre os que ficam para trás, dos que por culpa de todos, são engolidos pelas ondas da mudança, dos que ficam apenas com os braços e coração para o embate com a vida, são o povo profundo, os escondidos das gentes, os expostos à ganância abutre da globalização, os desnutridos culturais, os abandonados, os eleitos párias sociais, os ausentes da escolaridade.
São o alvo de caça predilecto do actual momento, pratica-se o tiro, porque são muitos tornam-se presa fácil, a histeria tomou conta dos imberbes políticos que nos governam, são virados de cabeça para baixo, sacudidos, na procura dos haveres que outros fizeram desaparecer. O Estado, nós, a Assembleia, os Eleitos, os detentores do poder, perseguem-nos, provocam-nos, enxotam-nos, desconhecem-nos, escondem-nos, avaliam-nos, chamam-lhes gorduras, são os Funcionários Públicos da Nação.
Tendo tido, como rampa de lançamento, o chumbo do PEC IV, e como parceiros para a queda do Governo os à esquerda do PS, a coligação mirrou Portugal, esvaziou-nos a alma, surripiou-nos as poupanças de uma vida enquanto, aos olhos de todos, protege os poderosos financeiros que nos oprimem.
Nesta hora ímpar do arrebate dos sinos, do fogo que nos queima, Portugal ordena o toque das trompetes para que os arautos supliquem aos Desempregados, aos Jovens, aos Reformados e aos Funcionários Públicos: votem, inspirem-se na última e nefasta quadratura de governação e Ergam-se…