Esta economia mata

 
Constava, na memória de alguns parlamentares, que teria havido, na época liberal suponho, um deputado que escrevera, na margem de um texto de discurso, esta lembrança: argumento fraco, falar mais alto. Praticamente coincidentes, apareceu um chamado Manifesto dos 74, aconselhando a reestruturação da dívida portuguesa, e a afirmação do Papa Francisco, esta de alcance mundial, de que “esta economia mata”. O primeiro texto provocou um “falar mais alto” de responsáveis pela governação, que inevitavelmente faz lembrar o discurso parlamentar ainda recordado mas não encontrado, com o fundamento da inoportunidade da lembrança em face da esperada saída, limpa ou não limpa, da troika que reduziu o país a um protetorado, e que alarmaria o mercado, anónimo mas soberano, atento a eventual influência no crédito governamental, presente ou futuro. Mas por outro lado, quando o Papa Francisco proclamou que “esta economia mata”, nenhuma fonte oficial, nacional ou estrangeira, manifestou qualquer inquietação quanto ao efeito que tal aviso teria no mercado, supostamente inteiramente absorvido nas palavras do chamado Manifesto. A solução prudencial desta espécie de contradição parece ser a de limitar a audiência do que os cidadãos disseram, dando por assente que o aviso da Santa Sé não terá o menor dos ecos no mercado não crente na sabedoria e autoridade moral do Bispo de Roma, e deste modo mantendo inalterável o rumo da chamada única política possível. Talvez uma consulta a qualquer dicionário sossegue o mercado quanto ao significado da palavra “estrutura” a respeito da divida que ninguém se atreve a assumir que não paga, mas isso não dispensa de meditar seriamente sobre o aviso de que “esta economia mata”, porque não se trata apenas da autoridade espiritual que certamente interessa aos fieis, mas do Bispo que enfrentou a miséria da América do Sul, a relação da submissão dos povos empobrecidos imposta pelos regimes ali em vigor, e até os riscos então largamente comentados da teologia da libertação. Não se trata apenas do homem de fé, trata-se do pastor com experiência e participação na crise que ameaça a relação entre a declaração de impostos e a declaração de direitos. Na altura em que vamos celebrar a memória de Frei Bartolomeu dos Mártires, que regressou do Concilio de Trento à sua diocese entrando por Freixo de Espada-à-Cinta, talvez, para conseguir uma relação equilibrada entre ambas as coisas, seja oportuna a meditação sobre o exemplo do Arcebispo. E sobretudo, quando não há dia em que não se fale em globalismo, não esquecer que existe na ONU um Conselho Económico e Social que continua a não ser convocado para se ocupar da crise global que já no século passado era considerada, quanto à pobreza, como uma ameaça igual à das armas de destruição maciça. Não era às armas que o Papa Francisco se referia quando avisou que “esta economia mata”.
 
Recentemente, o Patriarca de Lisboa, D. Manuel Clemente, ocupando-se, em conferência pública, de “A Igreja e a Sociedade no momento atual”, afirmou que as sociedades atuais vivem “um problema social gravíssimo”, que torna as pessoas em descartáveis, e vistas sobretudo com a utilidade de consumidores. Não podem ignorar-se estas prevenções e advertências, nem colocar a inquietação com a semântica a distrair da realidade.