Estabilidade

A estabilidade governativa é, queira-se ou não, um benefício para Portugal. Nos que a defendem nunca a vi condicionar a qualquer cor política ou partidária. É-o e deve ser defendida quer se esteja no governo (e aí não tenho dúvidas sobre a genuinidade da sua defesa) quer se esteja na oposição (e, neste caso, não basta afirmá-lo se a prática não o confirmar). E isto nada tem a ver com o exercício legítimo e salutar da oposição forte, fiscalizadora, atenta, exigente e mesmo dura, porque não? Mas nenhum destes temas deve ser, quer na forma, quer no conteúdo, um atentado à estabilidade. Para bem do país mas, igualmente, para benefício da própria oposição.
Como social-democrata assumido querendo o melhor para o meu país, quero, igualmente, o melhor para o meu partido. Se houver conflito, que haja preponderância do primeiro que, por isso mesmo, é anunciado à frente. Mas, no caso presente, não há conflito nenhum. O melhor na atualidade é ter o PSD na oposição.
Há quem defenda a estratégia de retirar ao Partido Socialista o apoio quando for necessário aprovar, no Parlamento, medidas com que os partidos mais à esquerda publica e notoriamente não concordam, já anunciaram divergência e prometem combatê-las. Nada mais errado! Se há altura para votar ao lado do governo é, precisamente, nas matérias em que os partidos mais à esquerda estão no outro lado da barricada. É essa a matriz social-democrata. Não se pode ser do PSD e votar ao lado de partidos anti-europeístas (legitimamente, entenda-se, mas cuja admissão não retira, pelo contrário, igual legitimidade ao europeísmo) em matérias de aprofundamento, melhoramento e consolidação das matérias que fazem parte dessa linha de pensamento. Não só porque é uma traição ao passado partidário, ao guião e ideário programático mas, sobretudo, porque é uma  traição ao eleitorado que é a única fonte de legitimidade de quem se senta na Assembeia da República.
Os cidadãos elegeram os deputados para o Parlamento por entendenderam que o ideário que eles prometeram seguir e defender era o melhor para os destinos comuns e de cada um. Não é aceitável que questões táticas e mero jogo partidário deite esta verdade para o caixote do lixo.
 
Por outro lado, não tenho a menor dúvida que tal atuação, que foi, imagine-se, anunciada publicamente pelo líder do meu partido, será altamente prejudicial ao PSD. Talvez sirva os interesses imediatos da cúpula partidária. Mas terá uma consequência enorme e desastrosa para a instituição partidária. Ora, mesmo independentemente do prejuízo nacional, não é admissível que uma direção efémera e transitória (como o são todas as direções, ao contrário do partido que tem um horizonte muitíssimo mais alargado) ponha em causa o futuro partidário e os legítimos anseios e expetativas dos seus militantes e apoiantes.
 
O verdadeiro problema do PS residirá na área à sua esquerda, porque se estiver na área à sua direita, o prejuízo não será dos socialistas, mas dos sociais-democratas! E, contrariamente ao que querem fazer crer, em vez da almejada maioria absoluta o próximo ato eleitoral trará a pazokização do PSD!