Estribado...

Conhecemo-nos há muito tempo. Foi numa roda de amigos, á volta de uma mesa de café em Alfândega da Fé, café entretanto desaparecido. Estávamos talvez em setenta e dois e ele teria trinta e dois anos contra os meus imberbes vinte e picos. Para mim tudo era novidade, o namoro transmontano dava-me a conhecer a terceira terra de coração com a qual, a partir daí, me haveria de fundir.
As conversas, de segredo e cuidados, auscultavam as opiniões políticas de cada um. Não era fácil a vida, de rapazolas daquele tempo, tendo como antevisão a imagem do abutre eminente que sobre nós pairava, a tropa e o ultramar.
Foi quando toda a gente saiu que nos confrontamos, frente a frente, naquela mesa do canto. Cedo percebi que era cá dos meus pois contava-me opiniões de seus conhecidos que, a julgar pelos assuntos e meio restrito, era gente de pensamentos largos e para a frente. Pôs-me ao corrente de tudo que se passava por detrás daqueles montes. Por travessas pessoas fui avisado que frequentava o mundo jovem e rebelde e que lhe colaram o bom estigma de vermelho.
A vida haveria de me fazer retornar amiúde a estas bandas e sempre com redobrado prazer. Nunca dispensava, quando por estas paragens me encontrava, a sua saborosa companhia. Contou-me, numa dessas ocasiões, que nascera em quarenta e seu padrinho foi figura eminente em Bragança, D. Abílio Vaz das Neves. Confidenciou-me que a proximidade ao Bispo haveria de cimentar nele os valores sociais e cristãos que ainda hoje defende. A cultura, inculcada pelo padrinho, haveria de torna-lo, em cinquenta e oito e com apenas dezoito anos, possuidor de escrita com elevada qualidade literária.
Os tempos mudaram, a idade pesa, já não me desloco com a frequência desejada mas, a amizade cimentada e os novos meios de transporte, haveriam de inverter os costumes, agora é ele que me visita todas as quintas feiras, não falha.
Cumprimentamo-nos á porta e, depois de breves auscultações, entramos. Por excentricidade assumida usa casaco transparente que ajudo a despir. Como chega cansado, de longa viagem, vai sempre directo ao mesmo sítio onde o deixo a descansar.
No dia seguinte saímos juntos, apoia-se no meu braço pois a idade avançada, madura, vê-se e dá nas vistas. Vamos sempre para a mesma esplanada, frente ao mar, Fico ao corrente de tudo que se passa, não só em Trás-os-Montes mas em todo o Portugal.
Este meu amigo, o Mensageiro de Bragança, hoje veio bem vestido, faz setenta e cinco anos e dei-lhe os sinceros parabéns. Confidenciei-lhe a minha admiração e felicitei-o pela estrutura, composição, leveza, temas e colaboradores bem como lhe augurei longa vida pois ele é, sem dúvida, um jornal semanário solidamente Estribado…