Eu (já) não acredito...

Nunca acreditei no Pai Natal, no seio de uma família onde era festejado o nascimento do Menino Jesus. Era Ele que, naquela noite fria, me trazia, virtualmente, as prendas deixadas à lareira da minha casa, no bucólico da minha aldeia. Prendas singelas, condizentes com a humildade e a pobreza do Menino, porém carregadas de Amor por todas as crianças. Com os tempos, sociedade e cultura trocaram-Lhe as voltas, quando o Pai Natal começou a adquirir em lojas de luxo o que Ele, na Sua condição modesta, não tinha condições de adquirir. E, para fazer ainda mais esplendorosa esta mudança, o Pai Natal não contempla unicamente crianças, mas também adultos; por vezes, mais estes do que aquelas.
Em criança, acreditava nas bruxas com que os meus pares me aterrorizavam as noites de insónia, tecidas histórias de pôr os cabelos em pé aos mais afoitos. Hoje já não acredito naquelas mulheres velhas e malfazejas que me ocuparam o imaginário: os malfazejos são outros.
Não acredito em amigos quaisquer, mas em Amigos. E, para mal meu, faltam-me os segundos e sobejam-me os primeiros. Os segundos são aqueles que se mantêm fiéis, leais; se necessário, dando tudo a troco de nada. Os outros distraem-se de nós nos piores momentos, passeados por outras bandas, feiras ou mercados (onde vão desgastando as memórias), deixando-nos à nossa sorte quando a sorte nos é madrasta e má a fortuna. Por aí se diz que os amigos (genericamente) são para as ocasiões. Não acredito, porque as ocasiões aparecem e os amigos desaparecem, ou chegam atrasados, com ensaios de álibis para desembaraçarem o “embaraço”. Acredito, antes, em amigos de ocasião, por abundantes. Ainda assim, consigo ser Amigo de alguns amigos meus.
Não acredito na palavra dada, porque é vã a palavra. Porque são vazios os valores que cultura, civilização e sociedade carrearam para o presente, esmagando o passado e comprometendo o futuro.
Não acredito em políticos que iludam com promessas que saibam não cumprir e que olhem unicamente aos interesses próprios e aos das forças que os suportam, renegando os daqueles que, de boa-fé, os escolheram, o povo em nome do qual (dizem que) governam.
Não acredito numa justiça que, em nome da lei, castigue fracos e proteja fortes, despreze vítimas e garanta direitos indecorosos a culpados.
Não acredito numa democracia que é mítica e utópica: o homem imperfeito não produz a obra perfeita, e jamais o poderoso se preocupará com o despido de poder, este tão desigualmente distribuído e exercido. Para os poderosos, o poder; para os fracos, o dever.
Não acredito numa sociedade que privilegie privilegiados e desproteja desprotegidos, sistemática reprodutora da reprodução, sociedade menor de deuses maiores e sociedade maior de deuses menores. Sociedade em que deuses maiores utilizem os seus privilégios e deles beneficiem para, lautamente, se banquetearem à mesa de iguarias compostas no dorso dos sacrifícios de deuses menores, ajoujados ao peso da falta de tudo.
Escrevo segundo a antiga ortografia.