Eutanásia: estou velho, sou doente e não produzo

Antes de explanar os fundamentos da minha opinião acerca do tema, cumpre-me recordar que a ninguém é possível dissociar-se da circunstância que lhe cabe em cada momento, em face dela passíveis de alterar, imponderavelmente, sentimentos e valores. Em abstracto, todavia, sou discordante perante a prática da eutanásia. O profissional da medicina suporta-se num código deontológico próprio e pratica a nobreza do seu ofício sob um juramento que, enraizado embora nos confins do tempo, nunca foi colocado em questão. Por outro lado, ater-se alguém a uma ética médica equivale a situar-se em falácia, já que a ética é algo individual, não grupal, e, no caso, não se haverá de sobrepor a tal deontologia e a tal juramento. Sendo que a profissão médica aponta para o objectivo supremo de suporte da vida, até que a morte a vença, a preocupação social primeira deveria assentar na garantia de uma vida digna para todos. O que pressupõe bem-estar para todos, cuidados para todos, assistência para todos, para que cada qual faça o seu caminho com dignidade, jamais fardo pesado para si e para terceiros. Morte devidamente assistida, não provocada ela nem desprezada a vida, deveria constituir o desejo maior de todos para todos. E tal significaria que cada um tivesse direito a um acompanhamento cuidado, oferecendo ao doente tudo e todos os meios que lhe garantissem agarrar-se à vida até que esta acabasse por perder a batalha, o mais tardiamente possível, ao máximo suportada aquela, do sucesso possível ao insucesso inevitável. Importará o direito ao máximo de vida, com dignidade, para todo e qualquer cidadão, independentemente de estatutos económicos, sociais, culturais ou outros. Se digna a vida, digna será a morte. A dignidade na morte equivale ao amparo até ao fim, aos cuidados até ao fim, jamais ao apagar da chama da vida, por mais ténue que ela já seja. Porque a morte é um “direito” que a todos cabe, já que nem a todos cabem o direito a nascer e o direito a viver. Se para aberrações legalizadas parece-me já bastar, dispensável será mais uma. Conheço pessoas (todos conhecemos) que já viajaram ao limite e regressaram, mercê de um esforço derradeiro que impôs o milagre desse mesmo regresso. Se as houvessem deixado partir ou lhes houvessem provocado a partida, não estariam entre nós, por força de um menosprezo ou de um assassínio. Que ninguém possa ser feito descer à mera condição de trapo humano já sem préstimo. Que todos, crianças, jovens e idosos possam usufruir de cuidados e serviços de excelência, de carinho  e ternura, à mão de profissionais de excelência, em vez do abandono, mormente quando dependentes e voz perdida. Se as famílias não dispõem de condições adequadas para cuidar, que se reforcem ou criem estruturas terceiras para o fazer, em vez de atirar quem padece para a outra margem, a margem oposta à vida. A questão da eutanásia não pode ser deixada na mão de duzentos e trinta cidadãos que funcionam em blocos ideologicamente opostos. O que significa que a vida ou a morte não podem ser deixadas na mão de caprichos ideológicos. Como não podem ser entregues a um qualquer referendo que se move, da mesma maneira, por marionetas suspensas de cordelinhos (igualmente) ideológicos, repetido até ao atingimento de objectivos propostos. E haverá que temer que, atingidos fins almejados, o uso ceda o passo ao abuso...
Escrevo segundo a antiga ortografia.