A factura da água

 
Vivo num município de gatas, em léxico económico e financeiro, com habitação secundária num outro, de rastos. Porque ninguém, alguma vez, assumiu a responsabilidade e a competência (no menos bondoso sentido do termo) de exigir, a um e a outro, qualquer prestação de contas. Porventura porque tal atitude poderia, eventualmente, beliscar os interesses dos partidos a reboque dos quais os autarcas respectivos arranjaram colocação. Ademais, todos sabemos que, após eleições autárquicas, as europeias e as legislativas far-se-ão chegar, e em política convém não arremessar pedras para os charcos, não se agitem as águas conspurcadas dos mesmos. E assim se vai arrastando,  imperante, o princípio bem nosso do “quem vier depois que feche a porta”. Só que, por vezes, demasiadas vezes, a porta, de tão empenada, já não pode ser fechada. Cenário assim montado, foram-se conduzindo, país fora,  gestões caprichosas, dolosas, criminosas, conduzidas por gestores vaidosos, irresponsáveis e extravagantes. E, enquanto os vasos comunicantes criados para que autarquias sensatas, escrupulosas e cumpridoras vão calando, como prémio, vícios e desmandos da irresponsabilidade de outras, em paralelo, munícipes inocentes vão sendo chamados ao pagamento coercivo de megalomanias sem sentido, seja por via de taxas de IMI pouco meigas, seja por vias outras, como as taxas escandalosas incluídas nas facturas da água mensalmente consumida. Meteram água os autarcas, e recuperam, pela água, a água que meteram. Li uma vez que não é a água um bem inesgotável, mas, então, deixar-se-ia de cumprir o respectivo ciclo e o princípio do químico Lavoisier. E não é, certamente, a pensar no que li que os municípios usam a artimanha de encarecer a factura respeitante ao líquido. Aliás, até me divido por dois concelhos onde a água abunda. A não ser pelo que expendo, e após o munícipe haver arcado com todas (repito: todas) as despesas para poder usufruir do abastecimento de água e de rede de saneamento, não entendo por que o mesmo há-de, ainda assim e por isso mesmo, ser tão dura e economicamente penalizado. Não me parece moral que, em muitos casos, tenha que suportar um valor final da factura que representa o quádruplo do preço a pagar pela água consumida. Como, do mesmo passo, não me parece moral que, mesmo não havendo consumido um mililitro do líquido em causa, o mesmo contribuinte pague uma factura demasiadamente pesada. Porque se inventaram tarifas de disponibilidade, de saneamento, de resíduos urbanos, que me lembre, as quais são as responsáveis maiores pelo preço escandaloso a pagar. Razão tinha o escultor de figuras de areia, naquela praia: “Save the water [;] Drink beer”...
Escrevo segundo a antiga ortografia