Figurões…

Habituei-me, penso que todos nos habituamos, ao desfile televisivo de muitas caras que Abril nos deu a conhecer. Há cerca de quarenta anos foram-nos apresentados, pelos partidos com ânsias de poder, como jovens promissores. Ganharam, com o andar dos tempos, foros de importância, poses de Estado, ares circunspectos, fachadas de sapiência, faces luzidias, vestimentas a preceito, auréolas de capacidades.
A Democracia, pela qual lutaram um punhado de bravos carregados de ideais, gerou personagens instaladas, gentes que vindos de algures e sem passado demonstrador de preocupações por outrem, foram cativando os postos de decisão, tudo em nome de visões politicas que nunca tiveram.
É fácil, manobrando as novas tecnologias, vasculhar passado não distante, aprisionar faces de muitos dos que foram pululando nos Governos Provisórios e Constitucionais, de Ministros a Secretários de Estado, de Chefes de Gabinete a Consultores, de Especialistas a Líder de Bancada, de Deputado a membro do Órgão Máximo, será fácil estabelecer um denominador comum, alcance do poder para o próprio e apaniguados.
Não vejo, com a tristeza da serenidade dos tempos, qualquer diferença entre os que se proclamam de esquerda daqueles que fazem questão de marcar suas origens e vivências direitistas. As mutações pessoais, de personalidade, de pose, de ares e superioridade são evidentes. Todos nós, incluo-me no lote, temos propensão de colagem a figuras que nos hão-de trair em detrimento dos que verdadeiramente lutariam por nós pois que possuídos de altruísmo genuíno.
E cá chegamos, a um País sem rumo, ausente das dores dos que pelo caminho vão ficando, sem rumos nacionais, sem culpados. Sabemos, há uns que sentem nas vísceras, porque se lutou contra o velho regime. Conhecemos agora, com as tristezas que cavam fundo, que o esperado passou ao lado. A Igualdade será meta inatingível.
Arrepiei-me com o anúncio de que alguns servidores do Estado, das Finanças, poderiam ter prémios de desempenho nas tarefas para os quais foram contratados Sou, sempre fui, contra este tipo de gratificação. Qualquer funcionário, público ou privado, terá de executar, dentro das suas possibilidades e da melhor forma, as funções a que está obrigado recebendo, em contrapartida, ordenado justo.
Mas, corre em todos os órgãos de informação, as chorudas e aviltantes recompensas dos tais gestores de topo, dos que se arrastam nas áreas de poder desde a noite dos cravos, prémios arrecadados se cumpridos objectivos fixados. Só que, estas eminências carregadas de sapiência, já auferem avultadas remunerações mensais.
Sentado no sofá, nos afagos da noite, observo estas inchadas e altivas personagens perorando acerca das recompensas dos trabalhadores fiscais negando-lhes o que eles se acham com direito. Dá náuseas, revoltas, impotências.
Triste país que perdeu a capacidade de indignação. Todos eles tomaram, com toda a certeza, decisões que nos trouxeram até aqui. O voto não chega para apanhar os culpados do sufoco, dos eternos gestores dos dinheiros de todos nós, daqueles que manobraram a roleta em proveito próprio.
Chega, corramos com estes detractores democráticos, com estes Figurões…