Gilda Santos, Belver, Brasil

Fomos encontrar, Teresa e eu, o nome de Belver encimando a casa da serra de Gilda Santos, em Araras, Petrópolis, a menos de duas horas do apartamento carioca da Gávea. É um condomínio fechado em silêncio e largueza de pulmões, e, no interior da moradia, sinais de viagens ou colecções cuidadas pela ex-professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro, onde se doutorou sobre O Físico Prodigioso seniano. Desperta-me a atenção alto gargalo vencido em rolhas de cortiça, outras tantas garrafas de vinho bebido pelo raro enólogo que é o marido, Emmanoel. No exterior, entre canteiros bem tratados por quem nomeia cada flor e um relvado que olha o nome da aldeia natal, Belver, percorremos a Rua de Portugal, como informa um dos muitos azulejos que nos deixam em família. Ela aproveita para gravar os nossos depoimentos destinados à página Ler Jorge de Sena, com que acaba de conquistar o Prémio Jorge de Sena (a entregar em Novembro), oferta de anónimo e decisão de júri escolhido pelo CLEPUL ‒ Centro de Literaturas e Culturas Lusófonas e Europeias da Universidade de Lisboa (Grupo 1).
Antes da subida ‒ indica-nos, à esquerda, a casa de Elba Ramalho ‒, lauteámo-nos na Pousada da Alcobaça, em Corrêas, onde, só de olhar ao almoço e à envolvente natural, apetece ficar uns dias. Vínhamos com apetite, já, após longa travessia desde D. João VI e seu neto Pedro II, que de Petrópolis fazia, no Verão, capital imperial, em cujo palácio ‒ hoje, museu ‒ passeámos, dentro de chinelos próprios. O imperador, aliás, gostava de usar pantufas…
Ora, este 6 de Setembro, sábado histórico-ecológico, é generosidade de quem acaba de viver cinco dias intensíssimos enquanto coordenadora-geral do 7.º Colóquio do Polo de Pesquisas Luso-Brasileiras do Real Gabinete Português de Leitura do Rio de Janeiro (também vice-preside a este), que distribuiu 160 conferencistas sobre “Percursos interculturais luso-brasileiros: modos de pensar e fazer” pelo Real Gabinete e Liceu Literário Português. É difícil, em Portugal, imaginar uma organização destas, em que Gilda tanto pensa o almoço dos convidados como dirige mesa de jovens pesquisadores. Gostei que trouxesse à Sala dos Brasões a querida professora Cleonice Berardinelli, 98 anos em 28 de Agosto.
Aos seis anos, partiu para o Brasil a menina de Belver, Carrazeda de Ansiães. Lá e cá, é a principal ponte entre as margens do Atlântico.